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Pura magia

Monga, a menina-gorila

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Eu sou caleidoscópica; somos todos. Fascina-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.”
(CLARICE LISPECTOR, escritora brasileira)

1.
Clotilde nasceu numa ilha.

Menina diferente de todas.

Vagava em seu mundinho de cabelos-de-fogo.

Foi crescendo entre barcos, dunas, lagoa e o mar.

Um dia se achou crescida o suficiente.

Decidiu meter o pé na estrada.

E assim foi.

2.
Logo aprendeu a subir em árvores.

Pegou ondas com a pranchinha de surf.

Fez todo tipo de castelos de areia.

Foi crescendo, crescendo e virou uma linda mulher.

3.
Num dia encontrou a dança.

Noutro, a música.

Logo após veio o cinema.

E Clotilde seguiu sonhando.

Nunca mais parou de sonhar…

E de circular nas imagens,

Circular…

4.
Voou por outras dunas em furacões de areia.

Nadou feito peixe de cristal na lagoa encantada.

Aqueceu o sol nos dias frios.

E aconchegou a lua nas noites sem estrelas.

5.
E, então, veio o tempo da escola.

E as dúvidas da moral.

A menina já sabia ler e escrever.

E já era maluquinha também.

Construía histórias e inventava contos.

Invocava forças e virou uma menina bruxa-feiticeira.

Clotilde era mesmo danadinha.

Só sabia inventar.

Mas jamais deixara para trás suas amigas inseparáveis:

Nanda-Sofia.

6.
E foi nessa época que passou o circo.

E Clotilde decidiu viajar.

Aprendeu malabarismos e palhaçadas com o

Costelinha, um palhaço secular.

Foi viajando por todos os lugares

E, por um segundo, Zásss!

Lá voava a menina para um novo mundo.

7.
E veio então um outro tempo: o do amor

E Clotilde se apaixonou.

Como toda pessoa sensível, ela também sofreu, mas não perdeu o rumo e muito menos a imaginação.

Viajou para Marte.

Voou com Pégaso pelas coisas da Grécia.

Chamou Mercúrio de “meu curativinho”.

E depois voltou para a Terra.

E foi aí que ela decidiu que a vida seria um grande parque de diversões.

8.
Ficou na dúvida: o que fazer?

Pois já fizera de tudo?

Costelinha, então, lhe falou.

“Clotilde, estamos precisando de uma Mulher Gorila no parque. Topas?”

E Clotilde topou.

Mesmo sem saber daquela mágica, lá foi ela ser:

MONGA, A MENINA GORILA.

9.
Ser Monga era muito diferente, coisa de magia especial.

A menina entrava numa jaula e a plateia delirava.

Com reflexos de espelhos, ela virava a fera, por pura imagem.

A gravação dos urros de Monga e os movimentos tentando abrir a jaula, assustava e encantava a multidão.

Ilusionava o mundo.

Virou uma celebridade.

10.
Mas tudo não passava de um sonho, imaginação.

A menina e a fera habitavam a mesma pessoa.

Clotilde foi aprendendo a conviver com as duas criaturas.

E então decidiu assumir as personas interiores:

Passou a ser Clotilde-Nanda-Sofia.

E assim seguiu, construindo histórias.

11.
Em todos os lugares do mundo só falavam de Monga.

Clotilde-Nanda-Sofia, as meninas encantadas que viravam gorila num passe de mágica.

Todos sabiam que era apenas um truque, mas pagavam muitos dinheiros pelo momento de êxtase.

Adoravam o susto, o espanto, a vertigem.

A ilusão.

12.
Clotilde sorria e achava tudo muito engraçado.

Sorria, como sempre aprendera a fazer em confronto com a vida.

Continuava a correr livre pelas dunas, nadando na lagoa e voando

pelos espaços da ilha-país de sua imaginação.

Mas um dia veio o tempo da solidão.

13.
Ser MONGA não encantava mais.

O espanto da plateia já não atraia o mistério nem a vertigem.

Sentia falta dos castelos de areia, do pai e das histórias.

Do desafio de subir em árvores.

Da magia das dunas e do imponderável.

Sentia falta do seu lugar, de sua identidade.

Sofria, sofria muito, pelo o que faltava.

E queria buscar um conforto na memória.

E mais uma vez, MONGA a socorreu.

14.
E foi então que Clotilde-Nanda- Sofia inventou um outro lance.

O caminho pela vida, agora, seria assim mesmo.

Cheio de idas e vindas.

“A travessia é o mais importante.

Tudo feito de luz e mistério.”

Largou tudo: o parque, o circo e o país da imaginação.

Voltou para a ilha e procurou um sentido de vida para ser feliz.

Hoje, Clotilde é uma mulher-mãe bem resolvida.

Daquelas que fazem rendas nos bilros, estendem roupas nos varais e amamentam os seus filhos nos bicos dos seios.

15.
Outro dia encontrei Clotilde nas dunas e perguntei por Nanda-Sofia.

Clotilde sorriu e depois nada me falou.

Apenas seguiu em frente.

Olhei atentamente para os pezinhos dela -ainda de menina- e enxerguei Nanda-Sofia.

Os pezinhos deixaram delicadas marcas na areia.

Lembrei-me de seus cabelos-de-fogo e da barra desbeiçada de seu vestidinho amarelo e da fita branca na cintura com as pontas soltas ao vento.

16.
E foi então que veio uma brisa leve do mar.

Era um novo tempo.

Ainda guardo comigo a imagem-movimento de Clotilde-Nanda-Sofia correndo pelas dunas da ilha.

Cantando e chamando por MONGA, A MENINA GORILA.

E feito reza de encanto, tudo vira memória, paz e sertão, lá pras bandas da grande lagoa.

……………………………

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e que conhece Monga, a menina-gorila. O texto é uma pequena novela vencedora de Itaú Prêmio SP, Prêmio Confederação Brasileira de Cooperativas e Mérito Eco Mundo, Amsterdã, Holanda. Hoje, Giba vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores no litoral de SC.

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