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Urnas da paz

Moraes, implacável, assume TSE com recados contra ódio e fakes

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Armando Cardoso, Especial para Notibras - Foto Antônio Augusto

Marcada por simbolismos e variados momentos de mal-estar, todos provocados pela sisudez e pelo isolamento deliberado do presidente da República, a posse do ministro Alexandre de Moraes na presidência do Tribunal Superior Eleitoral foi marcada por dois pontos muito eloquentes: a exaltação à democracia e a defesa veemente do sistema eleitoral brasileiro. Isso ficou claro com a presença maciça de governadores, embaixadores (os mesmos da reunião no Planalto), parlamentares e ex-ministros de Estado. Nada, porém, mais palavroso do que os aplausos de quatro ex-presidentes. Aliás, aplauso que Jair Messias não se permitiu dividir com a eclética e ecumênica plateia em ocasiões de entusiasmo coletivo.

Na verdade, aplaudiu quase nada. Talvez silenciosamente a ele mesmo. Em dado momento da solenidade, até as paredes do plenário do TSE perceberam a angústia do principal inquilino do Palácio do Planalto. O ápice da amargura pela falta de respostas ocorreu quando Alexandre de Moraes colocou as urnas eletrônicas à disposição daqueles que vivem – e recebem – para desacreditar a maquininha de votar. É a hora de auferi-las e mostrar as provas que nunca tiveram sobre a insegurança do equipamento. Moraes não disse, mas deixou claro que, se alguém se dispuser, ele não perderá o sono.

Pelo contrário. Dormirá em paz, muito mais tranquilo do que os que andam de mal com o mundo. Essa tranquilidade, repetida várias vezes no discurso de posse, não é aparente, pois ele e todos os brasileiros que rezam fora da cartilha bolsonarista sabem que não há hipótese de penetração na urna, tampouco nos servidores do TSE aptos a receberem os votos dos tribunais regionais. Obviamente que o termo grifado é apenas metafórico, uma vez que os votos são recebidos por computadores de última geração. Relax à parte, o que realmente é relevante foi dito recentemente pelo ministro Edson Fachin, ainda na presidência da Corte Eleitoral, a um grupo de advogados bolsonaristas.

Com outras palavras, mas com o mesmo tom de Alexandre Moraes, Fachin deixou claro que chantagens e falácias relativas a fraudes nas urnas não mudarão os rumos das eleições. O que está posto será feito. O resto são os votos. Vencerá quem os tiver mais. Simples assim. Questionadas de forma desconexa pelo presidente e por seus apoiadores, as urnas de hoje (com acréscimo de muita tecnologia) são as mesmas do dia 20 de agosto de 1993, quando Bolsonaro, em discurso no Clube Militar do Rio de Janeiro, acusou o Congresso Nacional de legislar contra a nascente máquina, considerada pelo então deputado federal como antídoto contra fraudes que ocorriam no processo impresso.

A pergunta a ser feita é óbvia: quem ou o que mudou de lá pra cá? Além da escassez de votos capazes de bancar a reeleição do autodenominado mito, pouca coisa. Voltando à posse, o que a maioria esmagadora dos presentes, incluindo os embaixadores, ouviu, aplaudiu e repetiu, mesmo silenciosamente, foram sonoros nãos ao ódio e ao golpismo. Entre os vários recados embutidos no discurso de Alexandre Moraes, um deles foi mais enfático e, por isso, aplaudido entusiasmadamente e de pé. O novo presidente afirmou que será “implacável” no combate às fake news. Em outro trecho, Moraes enfatizou que a Justiça Eleitoral não vai tolerar o pretexto da liberdade de expressão para disseminação de discursos de ódio. Em outras palavras, recado dado, recado ignorado.

Após a carraspana pública nos desapetrechados de noção, certamente o conceito de Alexandre de Moraes junto a novos e velhos frequentadores do cercadinho do Palácio da Alvorada estará bem mais próximo do inferno de Dante. Curioso, porque o crime inafiançável do ministro é tentar valer as leis que, deliberadamente, o rebanho santificado abomina. Azar de quem prega o caos, pois os tempos mudaram. Inquestionavelmente, o sistema eleitoral é motivo de orgulho. Parafraseando Nelson Jobim, presidente do TSE na primeira eleição com 100% de urnas eletrônicas, o voto dado em 2 de outubro próximo será o voto apurado. Portanto, fiquem tranquilos, caros apoiadores do mito. Tenham certeza de que não haverá reeleição em 2022. A fraude de 2018 mostrou porque não merece ser repetida. Sobre as urnas, que elas finalmente promovam a paz. Implacável, Alexandre de Moraes não deixará barato qualquer ameaça ao remanso nacional.

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