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A vida é assim mesmo

Morte de Joaquim mostra que o destino está traçado

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Uma das vantagens de ser adulta e morar sozinha é chegar no sábado à noite, deixar o aparelho celular no silencioso e se jogar na cama sem tempo para acordar. É verdade que, vez ou outra, tenho companhia, mesmo porque ninguém é de ferro. Mas, naquele dia, não foi o caso.

Acordei quando o domingo já convidava para o almoço. Fui até o banheiro, onde dei uma boa olhada no espelho. Dei aquela puxada na pele para tentar enxergar o rosto. Que cara de sono! Os olhos pareciam duas jabuticabas murchas.

Voltei para cama, de onde peguei o celular na cabeceira. Inúmeras chamadas não atendidas e mensagens da tia Alice. Devolvi o aparelho para o lugar que ele deveria permanecer até meu sono ir embora. Não funcionou. Tia Alice? Ela nunca me ligava ou mandava mensagens. O que ela queria justamente no meu dia de folga?

Curiosa, li as mensagens. Na verdade, eram duas da minha tia, além de outras de parentes, sem contar uma do Francisco, colega de trabalho que estava se esforçando para sairmos juntos. Se ele se esforçasse um pouquinho mais, talvez rolasse algo. Quem sabe?

Tia Alice é uma pessoa fundamental na minha vida. Após eu ficar órfã de pai e mãe aos 14 anos, foi ela quem me criou. Quase 40 anos desse drama familiar, ainda somos muito próximas, apesar de quase não nos falarmos. De vez em quando, uma ou duas vezes a cada seis meses, apareço na sua casa, onde tomamos chá acompanhado de torradas com geleia.

O motivo de tantas ligações foi o falecimento do tio Joaquim, ex-marido da minha tia. Apesar de separados há quase 15 anos, os dois ainda eram amigos. Aos 84 anos, meu querido tio resolveu nos deixar naquela madrugada de sábado para domingo.

O enterro seria às 17 horas. Olhei o relógio e percebi que precisaria me arrumar o mais rápido possível. Entrei debaixo do chuveiro, o que talvez tenha me feito recordar de uma viagem que fiz com meus tios para a cachoeira do Pinga, aqui mesmo no meu Sergipe. Fomos de carro e levamos quase oito horas para chegar, mas foi um passeio maravilhoso. Estava eu com 16 ou 17 anos.

Assim que cheguei ao velório, percebi o quanto de gente gostava do tio Joaquim. Não só a família, mas muitos amigos. Foi difícil olhar o homem que me criou naquele caixão cheio de flores. Chorei abraçada à minha tia. Ela, talvez tentando me consolar, envolveu meu rosto com as mãos.

— Tia, como é que vamos viver sem o tio Joaquim?

— A vida é assim mesmo, minha filha. De vez em quando, ela vem cheia de mortes.

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