João Cabral de Melo Neto (III)
Morte e Vida Severina: um poema sobre a miséria brasileira
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DIPLOMACIA E ESTILO CORTANTE DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Como diplomata brasileiro, serve em Londres, França, Paraguai, Senegal, Portugal e Espanha.
Das experiências nesse país dominado pelo franquismo, das reflexões sobre a miséria brasileira e das leituras marxistas surgem as cores sociais de obras como O cão sem plumas (1950) e O rio (1954).
É também a consciência social que o coloca em problemas quando é perseguido, acusado de integrar uma célula comunista no Itamaraty, e passa quase três anos afastado de suas funções, ainda no início dos anos 1950.
Tensão que não impede, entretanto, a confecção de seu trabalho mais famoso, em 1955.
MORTE E VIDA SEVERINA
1955, uma encomenda de Maria Clara Machado, então diretora da companhia teatral O Tablado que não levou a montagem adiante. Em 1965, no entanto, o sucesso da peça foi estratosférico com a encenação no Tuca, em São Paulo. Com músicas de Chico Buarque, consagrou João Cabral para o grande público e serviu de carimbo definitivo para sua entrada na Academia Brasileira de Letras, em 1968.
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(Gilberto Motta)
Adaptado para diversas mídias (teatro, música, cinema), o auto de Natal pernambucano conserva a tradição dos autos medievais. Mantém a precisão e a construção poética característica de João Cabral, apesar da linguagem menos hermética, sendo um marco em sua carreira.
Do poema dramático que consolida a poesia social de João Cabral de Melo Neto destacamos a cena em que Severino conversa com a mulher da janela:
DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE
DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE
QUEM SE SABERÁ
— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
[…]
— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar;
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
— Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
[…]
— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
— Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.
(Morte e Vida Severina, João Cabral de Mello Neto, NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, Belém – Pará, www.nead.unama.br
Pp 8-11).
A narrativa da trajetória do sertanejo Severino em busca de dignidade por meio de uma vida melhor no litoral é uma crítica acirrada sobre a miséria e a ingerência dos poderes públicos no que fiz respeito à seca.
Nessa cena, Severino pergunta por emprego a uma rezadeira e fica sabendo que “só é possível trabalhar nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar” , ou seja, o ofício de celebrar funerais é a profissão mais rentável. Frente ao cenário da seca, ” a morte é tanta” que ” só os roçados da morte compensam” , pois ” dão lucro imediato”, ” recebe-se na hora mesma de semear”.
(Edna Domenica).
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Referências bibliográficas:
– João Cabral de Melo Neto – Uma biografia, livro escrito por Ivan Marques, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, 2016.
– Morte e Vida Severina, João Cabral de Mello Neto, NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, Belém – Pará, www.nead.unama.br
Pp 8-11).
Edna Domenica é cronista, poeta. Dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia” por meio de leituras dos autores: João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque de Holanda e outros.
Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor, pesquisador nas áreas de cinema e literatura com foco em João Cabral de Melo Neto e nos aspectos diferenciados da obra da grande Hilda Hilst.