Acendendo a fogueira
Moscou dá seu recado duro a Washington sobre novo cerco ao Irã
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Um recado enviado por Moscou a Washington nesta terça,13, pelos meios diplomáticos, foi direto, público e calculadamente duro. Não se trata apenas uma defesa protocolar do Irã, mas um alerta estratégico. Ao afirmar que “o Irã não é a Venezuela”, o Kremlin deixou claro que qualquer ação militar dos Estados Unidos contra Teerã pode ultrapassar rapidamente o controle político e militar, empurrando o mundo para uma escalada sistêmica.
A crise iraniana, vista isoladamente, já é grave. Inserida no atual contexto global, ela se transforma em um barril de pólvora geopolítico, cercado por fósforos acesos. Os cenários que analistas internacionais desenham são os mais completos = e que beiram a fronteira de uma catástrofe mundial. Vamos a eles:
1. Caso Donald Trump opte por um ataque direto — ainda que “cirúrgico” — contra alvos iranianos, o efeito dominó seria quase automático; Irã responderia não apenas de forma convencional, mas assimétrica, com revides indiretos por meio de aliados e milícias.
Dentro desse quadro, o Hezbollah, no Líbano, poderia abrir uma frente contra Israel, elevando o risco de guerra aberta no Levante. Já os Houthis, no Iêmen, intensificariam ataques no Mar Vermelho, ameaçando rotas comerciais vitais.
Ao mesmo tempo, milícias xiitas no Iraque e na Síria ampliariam ações contra bases americanas. Nesse cenário, o conflito deixa de ser EUA x Irã e passa a ser um arco de instabilidade contínua, do Mediterrâneo Oriental ao Golfo Pérsico.
2 No segundo cenário, Israel entra no tabuleiro. O Estado judeu é o ator regional mais sensível à crise. Um ataque americano poderia ser interpretado em Tel Aviv como sinal verde tácito para ações preventivas contra instalações iranianas ou contra o Hezbollah.
Isso elevaria o risco de confronto direto Israel–Hezbollah, ataques massivos a infraestruturas civis e pressão internacional por cessar-fogo — provavelmente ignorada nos primeiros dias.
A partir desse ponto, a escalada deixa de ser previsível. A experiência histórica mostra que guerras envolvendo Israel tendem a se expandir rapidamente antes de se estabilizar.
O cenário 3 é mais assustador, com Rússia e China prestando apoio estratégico sem guerra direta. Moscou não fala em intervenção militar direta, mas seu posicionamento sugere linhas vermelhas claras, com a Rússia podendo ampliar cooperação militar, inteligência e logística com o Irã.
Quanto a China, altamente dependente do petróleo iraniano, tenderia a atuar diplomaticamente contra os EUA, pressionando em fóruns multilaterais e reforçando laços econômicos com Teerã.
Esse quadro não gera uma guerra direta entre potências nucleares, mas cria uma guerra fria regionalizada, com múltiplos pontos de atrito e alto risco de erro de cálculo.
Talvez o mais temido dos desdobramentos está no fato de o Irã controlar, de fato, a capacidade de interditar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo.
Uma suposta escalada militar poderia resultar em disparo imediato nos preços do petróleo, choques inflacionários globais, instabilidade econômica em países importadores de energia, pressão social e política em economias já fragilizadas. Nesse caso, o conflito ultrapassa o campo militar e atinge diretamente o cotidiano das populações mundo afora.
O último cenário — e o menos provável em momentos de retórica inflamada — é o da contenção forçada, impulsionada por medo mútuo do colapso global.
Na eventualidade de que isso ocorra, os Estados Unidos sinalizariam um recuo parcial, com Rússia e China intensificando a mediação. Na UE, países europeus tentariam ressuscitar canais diplomáticos, o regime iraniano usa a crise para reforçar sua legitimidade interna. Mesmo assim, o custo político já estaria pago: o mundo sairia dessa fase mais instável, mais armado e mais desconfiado.
Ao condenar as ameaças de Washington, a Rússia não defende apenas Teerã — defende o princípio de que mudanças de regime pela força voltaram a ser um risco global real. A mensagem é clara: o sistema internacional está frágil, as instituições multilaterais enfraquecidas e a tentação do uso da força voltou a ocupar o centro da política externa das grandes potências.
Nesse contexto, o Irã não é apenas um país em crise. É o ponto de ignição potencial de um conflito que pode redesenhar alianças, desorganizar mercados e aprofundar a divisão entre blocos globais. O pavio, claro, está à vista. A pergunta que permanece é sobre quem ousará acendê-lo e quem conseguirá apagá-lo depois.
