Conspirações meteóricas
Mulher de Tarcísio abre portas para Cassandra e gera histeria coletiva
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Na Grécia antiga, Cassandra previa o futuro e ninguém acreditava. No mundo que discute política hoje, ninguém prevê nada, mas todos têm certeza absoluta de tudo.
Quando Tarcísio de Freitas curtiu o comentário da esposa, Cristiane Freitas, sugerindo que o país precisava de um novo CEO, não houve anúncio formal, nem frase estruturada, nem plano minimamente delineado. Houve uma curtida, gesto simples, cotidiano, desses que costumam encerrar conversas banais. Ainda assim, foi o suficiente para disparar mais um episódio de histeria coletiva no mundo que vive de discutir política.
Não no país real, que seguia ocupado com seus próprios problemas concretos, mas naquele ecossistema específico formado por analistas, comentaristas, militantes profissionais e patrulheiros de timeline, onde tudo é sinal e nada é gratuito. Ali, uma curtida jamais é apenas uma curtida. Ela carrega intenção, cálculo, estratégia e, se possível, um roteiro completo para 2026.
Nesse ambiente, a política já não se manifesta por palavras, mas por vestígios. Um emoji vira indício. Um silêncio vira prova. Um gesto automático passa a ser tratado como peça de xadrez num tabuleiro invisível. Não se pergunta mais o que foi dito, mas o que estaria escondido por trás do que não foi dito. A paranoia não aparece como exagero. Ela opera como método.
É nesse terreno que prosperam as Cassandras da timeline. Especialistas em antecipar o que ainda não existe, intérpretes do nada, leitores compulsivos de entrelinhas inexistentes. Não aguardam fatos porque fatos costumam atrapalhar boas teses. Preferem sinais mínimos, suficientemente ambíguos, capazes de sustentar qualquer narrativa que precise ser montada com urgência.
O funcionamento é sempre o mesmo. Alguém sugere. Outro afirma. Um terceiro garante que confirmou. Em poucas horas, a convicção coletiva está formada e já circula com ares de verdade revelada. A conspiração nasce meteórica, cruza a atmosfera política em alta velocidade e deixa um rastro luminoso de comentários indignados, análises categóricas e certezas absolutas.
Esse mundo vive sob patrulhamento permanente. Vigia gestos, fiscaliza intenções, cobra coerência milimétrica de frases incompletas e transforma qualquer ambiguidade em prova definitiva de algo que ninguém sabe exatamente o que é, mas todos juram reconhecer. A discussão sobre projetos, ideias ou rumos dá trabalho. Interpretar curtidas é mais rápido, rende engajamento e alimenta a sensação permanente de alerta.
No fim das contas, a curtida de Tarcísio não revelou candidatura, conspiração ou plano de poder. Revelou o ambiente que a cercou. Um mundo político que já não precisa de fatos para entrar em ebulição, bastando um gesto mínimo para acionar a engrenagem da histeria interpretativa.
As Cassandras seguem firmes, prevendo futuros a partir de likes, enquanto o patrulhamento permanece atento, nervoso e sempre pronto para o próximo meteoro digital.
Até o próximo emoji.
