As protagonistas
Mulheres comandam transformação do Nordeste
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O Nordeste sempre foi sinônimo de resistência e luta. No entanto, nos últimos anos, uma mudança silenciosa, mas profunda, vem ganhando espaço na região: o protagonismo feminino. Seja na agricultura familiar, no empreendedorismo urbano, nas universidades ou em movimentos sociais, as mulheres nordestinas estão ocupando posições antes negadas a elas e transformando a realidade de suas comunidades.
O acesso à educação tem sido o motor dessa revolução. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) apontam que, em estados como Ceará e Rio Grande do Norte, as mulheres já representam mais de 55% do total de matrículas em cursos universitários.
Para a socióloga Maria do Carmo Andrade, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), essa conquista é decisiva:
“As mulheres nordestinas sempre foram pilares da família e da comunidade, mas historicamente lhes faltava acesso à educação formal. Hoje, ao se tornarem maioria nas universidades, elas não apenas conquistam espaço no mercado de trabalho, mas também redefinem papéis sociais.”
Essa presença nas salas de aula tem reflexo direto na economia. Em Pernambuco, por exemplo, o número de mulheres em cursos de engenharia cresceu 30% nos últimos dez anos, sinalizando uma mudança também em áreas tradicionalmente dominadas por homens.
Outro campo em que o protagonismo feminino desponta é o empreendedorismo. Relatório do Sebrae de 2024 revela que quatro em cada dez pequenos negócios nordestinos são liderados por mulheres. Em muitos casos, essas iniciativas nasceram da necessidade de complementar a renda familiar, mas acabaram se transformando em verdadeiras redes de geração de emprego e renda.
No sertão do Piauí, a artesã Luciana Mendes, de 34 anos, criou uma cooperativa de bordadeiras que exporta peças para a Europa. “Antes, cada uma trabalhava sozinha e não conseguíamos viver apenas do artesanato. Hoje, com a cooperativa, temos acesso a mercados maiores, treinamentos e até exportamos. Isso mudou nossas vidas”, conta.
Para além do mercado, as mulheres nordestinas estão na linha de frente de movimentos sociais. No semiárido, grupos liderados por agricultoras organizam cisternas comunitárias, garantindo água potável para centenas de famílias. Já no litoral, projetos de turismo sustentável, coordenados por mulheres, conciliam preservação ambiental e geração de renda.
A agricultora cearense Francisca Alves, de Quixeramobim, coordena um coletivo de mulheres que produz polpas de frutas destinadas à merenda escolar. Aos 52 anos, ela se orgulha da transformação:
“A gente sempre trabalhou, mas era invisível. Agora, somos reconhecidas, temos renda própria e participamos das decisões da comunidade. Isso é independência.”
Apesar das conquistas, o caminho ainda é desafiador. Muitas mulheres nordestinas enfrentam jornadas duplas e até triplas, dividindo o tempo entre trabalho, casa e estudo. Além disso, questões como desigualdade salarial e violência de gênero ainda persistem.
Mesmo assim, elas reinventam formas de resistir. No campo cultural, por exemplo, lideram grupos de maracatu, quadrilhas juninas e projetos de literatura de cordel, reafirmando a identidade nordestina. Na política, ainda sub-representadas, vêm ampliando sua presença em câmaras municipais e assembleias legislativas.
Especialistas afirmam que o protagonismo feminino é peça-chave para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Segundo a ONU Mulheres, investir na autonomia econômica de mulheres pode aumentar o PIB de países em até 30%. No caso do Nordeste, isso significa não apenas crescimento econômico, mas também redução da pobreza e maior equidade social.
“A independência feminina é, ao mesmo tempo, econômica, cultural e política. O Nordeste está dando exemplo ao país de como as mulheres podem liderar processos de transformação profunda”, conclui a socióloga Maria do Carmo Andrade.
Mais do que números e estatísticas, o que se vê no cotidiano nordestino é a força de mulheres que nunca desistiram, mesmo diante das adversidades. Elas representam a resistência histórica de um povo que aprendeu a florescer mesmo em meio à seca.
E se antes eram invisíveis, hoje elas ocupam manchetes, lideram projetos, comandam empresas e transformam realidades. A mulher nordestina, símbolo de coragem e esperança, mostra que o futuro do Brasil também se escreve com sua voz firme, suas mãos trabalhadoras e sua visão de mudança.