Curta nossa página


Redes sociais

Mundo abre debate sobre os novos riscos para os adolescentes

Publicado

Autor/Imagem:
Margarida Sorato, Especial para Notibras - Foto Editoria de Artes/IA

Os congressistas da França iniciam nesta segunda-feira (26) a discussão de um projeto de lei que pode colocar o país na linha de frente de uma das decisões mais sensíveis da era digital: proibir o acesso de crianças e adolescentes com menos de 15 anos às redes sociais. A proposta surge em meio a uma onda internacional de questionamentos sobre os impactos dessas plataformas na saúde mental, no comportamento e na formação social dos jovens.

Caso seja aprovada, a medida francesa representará um passo além das regras atuais — que já exigem consentimento dos pais para menores de 15 anos — ao impor uma proibição direta, transferindo às plataformas a responsabilidade de verificar a idade dos usuários e impedir o acesso de quem não cumprir o critério legal.

A França não está sozinha nesse movimento. Pelo contrário: o debate avança rapidamente em várias partes do mundo, impulsionado por estudos científicos, pressão de famílias e uma percepção crescente de que os mecanismos das redes sociais operam em conflito com o bem-estar juvenil.

Movimento global
A Austrália foi o país que deu o passo mais radical até agora. Em dezembro de 2025, entrou em vigor uma lei que proíbe o uso de redes sociais por menores de 16 anos, obrigando empresas como Meta, TikTok, Snapchat e X a bloquear o acesso de adolescentes. Multas pesadas estão previstas para quem descumprir as regras, invertendo a lógica anterior, em que a responsabilidade recaía principalmente sobre pais e usuários.

Inspirada nesse modelo, a Dinamarca anunciou que prepara uma legislação semelhante, com idade mínima de 15 anos, enquanto outros países europeus caminham no mesmo sentido. No âmbito da União Europeia, o debate gira em torno da fixação de uma idade mínima entre 15 e 16 anos para acesso sem consentimento parental, além do fortalecimento de mecanismos de verificação etária.

No Reino Unido, o governo conduz estudos e consultas públicas para avaliar medidas mais duras, embora ainda não haja um banimento formal. Já nos Estados Unidos, a abordagem é fragmentada: alguns estados impõem restrições a menores de 13 ou 14 anos, enquanto propostas federais seguem travadas no Congresso, em meio à resistência das big techs e a disputas sobre liberdade de expressão.

Por que a restrição?
O principal argumento por trás dessas iniciativas é a preocupação com a saúde mental de crianças e adolescentes. Pesquisas apontam correlação entre uso excessivo de redes sociais e aumento de casos de ansiedade, depressão, distúrbios de imagem corporal e isolamento social entre jovens.

Especialistas também alertam para a lógica dos algoritmos de engajamento, que tendem a privilegiar conteúdos extremos, sensacionalistas ou emocionalmente carregados — um ambiente particularmente sensível para cérebros em desenvolvimento. A isso se somam riscos como cyberbullying, exposição precoce a conteúdos violentos ou sexualizados e a pressão constante por validação social, medida em curtidas e seguidores.

Relatórios de órgãos de saúde pública indicam que adolescentes são mais vulneráveis a esses estímulos, não apenas pelo tempo de exposição, mas pela dificuldade de distinguir performance digital de realidade.

Efeito colateral?
O debate, no entanto, está longe de ser consensual. As plataformas argumentam que não são, por si só, um mal absoluto. Defendem que redes sociais podem oferecer espaços de expressão, aprendizado, pertencimento e apoio emocional, especialmente para jovens em situação de isolamento ou pertencentes a minorias.

Críticos das proibições totais afirmam que o problema não está apenas no acesso, mas na forma como essas plataformas são desenhadas — com modelos de negócios baseados na atenção contínua e na coleta de dados. Para esse grupo, banimentos podem empurrar adolescentes para ambientes menos regulados, aplicativos clandestinos ou fóruns sem qualquer moderação.

Ainda assim, cresce o entendimento de que o risco é estrutural, não acidental. Ou seja, mesmo quando bem-intencionadas, as redes operam com mecanismos que amplificam comportamentos compulsivos e comparações sociais, criando efeitos indiretos, mas profundos, sobre o desenvolvimento emocional dos jovens.

Proibir ou regular?
A proposta francesa reabre uma questão central: é melhor proibir ou regular de forma mais rígida?

Defensores da proibição argumentam que a medida é clara, objetiva e protege crianças antes que danos se consolidem. Para eles, a dificuldade de fiscalização não pode servir de desculpa para a inação do Estado.

Já os críticos defendem uma combinação de educação digital, responsabilização das plataformas, transparência algorítmica e participação ativa das famílias, em vez de um bloqueio absoluto baseado apenas na idade.

Independentemente do desfecho na França, o debate está lançado — e dificilmente haverá retorno ao status quo. O avanço das propostas restritivas indica uma mudança de mentalidade: governos passam a tratar redes sociais não apenas como ferramentas de comunicação, mas como ambientes de risco regulável, à semelhança do álcool, do tabaco ou de jogos de azar.

No centro dessa discussão está uma pergunta incômoda, mas inevitável: até que ponto uma sociedade pode permitir que crianças cresçam dentro de plataformas projetadas para adultos — e movidas por interesses comerciais?

A resposta, ao que tudo indica, começa a ser escrita agora, artigo por artigo, país por país.

………………….

Margarida Sorato é Terapeuta Holística

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.