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Renascer devagar

NA CIDADE PEQUENA, O TEMPO SE ABRE

Publicado

Autor/Imagem:
Thalita Delgado - acervo pessoal

tempo do tempo

Faz mais de 15 dias que peguei minha mala roxa de coração, enfiei umas roupas meio nada com nada e fui embora de casa — pausa dramática nesse momento! Sim, larguei novamente o meu mundo para tentar buscar o mundo.

Peguei o resto do que tinha em mim e vim, na cara e na coragem, para uma cidadezinha de pouco mais de 17 mil habitantes, com uma igreja que nunca muda de cor e pessoas que ainda fazem compras marcando na ficha, tudo na boa e velha confiança do “você é fi de quem?”.

Para quem me conhece, essa sempre foi uma realidade quase nunca pensada: passar dias numa cidade pacata, sem quase nada pra fazer, poucos amigos além da minha família, nenhuma fonte de renda, e trocar minha cama queen pelo sofá dobrável da minha mãe — ênfase aqui, porque quando a gente sai de casa aos 17 e já está com 35, passar tempo demais com os pais é quase prova de resistência.

Mas a vida é essa eterna caixa de surpresa. Eu só vim. E, quando vim, me propus a estar de coração aberto a tudo que poderia acontecer. E tem acontecido.

Jogos eternos de buraco nas noites de segunda a sexta, cafés com calma de manhã, almoços barulhentos na casa da minha madrinha, elos invisíveis sendo criados com os filhos da minha prima, o fortalecimento do amor já existente com a prima da infância, tarde de cerâmica com a nova namorada do meu pai, novas amizades sinceras e novos amores — sempre os amores!

Fato é que, enquanto alguns chamam isso de fugir, eu chamo de renascer. Existe um processo invisível que acontece quando a gente sai do lugar do caos. Até porque não há como se reconstruir no mesmo lugar onde a gente está se destruindo. Então, sim, a fuga também é benefício, tudo dependendo de como você lida com isso.

Estar longe não quer dizer estar em inércia ou se escondendo do mundo. Quer dizer que você teve a coragem de admitir que precisa de tempo para olhar as coisas com sabedoria e cautela. E, aqui, sou grata ao mundo e aos meus pais por conseguirem me proporcionar esse tempo, porque não são todos que podem.

Quando a gente sai, passa a olhar as coisas com mais discernimento, e a calma se torna a maior companhia. Aliás, a calma e o tempo, que passam devagar numa cidadezinha como essa na maior parte dos dias, assustam. E assustam muito. Porque a gente para pra ver que não é o tempo que passa de forma lenta aqui. É a gente que está com o senso de urgência tão elevado o tempo todo que não dá conta do mundo. E, quando vê o fim do dia, apenas usou o tempo para fingir que fazia coisas.

Aí o tempo assusta. O olhar para o que você deixou pra trás assusta. As lembranças de como tudo já foi assustam. As memórias que o bingo da igreja te traz também assustam.

Mas acho que a gente precisa mesmo ficar assustado para deixar que as coisas se escancarem na nossa cara e comecem, se não a fazer algum sentido, pelo menos a nos dar novas percepções de mundo.

Pausar o tempo é impossível, mesmo a gente às vezes querendo muito. Mas se dar um tempo é justo e, muitas vezes, necessário.

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Thalita Delgado (@tha_delgado): Jornalista, publicitária e empresária, também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou em 2024 seu primeiro livro, “Sorrindo e Chorando — porque é isso que a gente faz”, pela Editora Autoria.

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