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Gafes dos focas

Na ditadura, Blecaute, General da Banda, virou General de Brigada

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Entre as várias histórias vividas no jornalismo, algumas se transformaram em gafes históricas. Em duas delas, fui o protagonista. Para minha sorte, os colegas da redação jamais souberam e, acredito, nunca saberão porque, comandada pelo mestre Amado Ribeiro, a maioria, infelizmente, está no céu cobrindo os encontros sagrados entre São Jorge de Capadócia, São Pedro, São Cosme e São Damião, São Sebastião e São Judas Tadeu, todos ligados à ecumênica Nação Rubro-Negra. Foca dos focas, fui designado para entrevistas com o músico Hermeto Pascoal e o cantor carnavalesco Blecaute, conhecido como “General da Banda”, devido ao seu maior sucesso, a marcha homônima de carnaval.

Na época, já idosos, ambos moravam no longínquo subúrbio do Rio: um em Senador Camará e outro em Bangu. As pautas eram para dois fins de semana seguidos. Por isso, aproveitei a proximidade dos entrevistados para sangrar o porco com uma única estocada. A ideia era mostrar aos leitores que o subúrbio também abriga artistas famosos. Não era bem assim, pois os dois monstros sagrados da cultura nacional estavam em decadência. De qualquer modo, valia a pena contar as duas histórias. Não fui informado sobre a carreira de multi-instrumentista de Hermeto. Daí, ter sido exposto ao ridículo logo na primeira pergunta: “Que instrumento o senhor toca?”. “Meu filho, se você arriar as calças, tiro som até do seu pinto. Se eu achá-lo, é claro”. Graças a Deus, ele não achou.

Quanto ao resultado da entrevista, fui capa do então segundo caderno do jornal. Na casa de Otávio Henrique de Oliveira, o Blecaute, um preto retinto, cheio de graça e de ótimo humor, a recepção foi a melhor possível. Novamente caí do cavalo antes mesmo da primeira sentada. Tentando mostrar conhecimento da carreira militar, indaguei: “O senhor é general de cavalaria, intendência ou de infantaria?” “Serviu aqui mesmo no Rio de Janeiro?” “Já está na reserva há muito tempo?”. Após uma sonora e fardada gargalhada, Blecaute  respondeu: “Sou da putaria, sirvo somente às minhas cabrochas e, com elas, permaneço na ativa. E como!”. A foto para ilustrar a matéria foi do Blecaute com sua farda de “General da Banda”. Nova capa do segundo caderno.

Blecaute morreu em 1983, aos 63 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Alagoano de Olho d’Água das Flores, Hermeto completou recentemente 87 anos. Antes de partir para o futebol, em minhas andanças pelas redações dos pequenos, médios e grandes jornais do Rio cobri desde crimes hediondos a quermesses e eventos portentosos em igrejas, inclusive na Arquidiocese da cidade. Foi lá que conheci o simpaticão Adionel Carlos da Cunha, o coleguinha de Deus, assessor de imprensa do cardeal Eugênio Sales por 39 anos, e ouvi a gafe do jornalista esportivo e humorista Maurício Menezes, com quem conversei algumas vezes no período em que atuei como porta-voz do STF, do TSE e do STJ. Boas lembranças dessa época.

Aos 84 anos, Adionel é personagem de uma das mais fantásticas mancadas do jornalismo brasileiro. No início da carreira, Maurício foi designado para cobrir uma coletiva com dom Eugênio Sales, que, por motivos que fogem à memória, não pode comparecer, sendo substituído pelo assessor de imprensa Adionel Carlos. No meio da entrevista, Maurício pediu para fazer uma pergunta e sapecou na frente dos atônitos colegas: “Há quanto tempo o senhor é Adionel?” Ninguém entendeu, muito menos o próprio. “Por favor, repita a pergunta”, emendou o assessor da Arquidiocese. “Quando o senhor assumiu o adionelato?” “Desde sempre, meu filho!” Para o então jovem Maurício, “adionel” era, a exemplo de padre ou monsenhor, uma função da Igreja. Como veem, não há razão para eu me preocupar com o General da Banda Blecaute ou com o multi-instrumentista Hermeto. Que atire a primeira pedra quem nunca cometeu uma gafe.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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