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A lenda

Na noite, a ruiva brilha

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

Astolfo chegou alucinado no boteco de beira de praia:

– Rapazi, eu juro que eu vi… a Ruiva!

– Que Ruiva, loko? Delirando?

– Nada… era ela. Desde menino pequeno minha avó falava dela. A Ruiva…a Ruiva do Vale da Utopia. Eu vi e ela “cuage” me pego!

Durante anos, a estória da mulher Ruiva que ataca os pescadores no Vale da Utopia na Guarda do Embaú virou uma lenda.

“Lenda o cacete, tio! Coisa verdadeira. Ela existe mesmo e vem e pega e domina gente e leva”, contou Mestrinho, vinte e poucos anos de Guarda e já crente na lenda.

“Mô, fio… num é bem desse jeito. A Ruiva existe é na cabeça da gente…só isso…despois de uns baziado a gente vê até disco vuadori!”, rebate seu Antonio, 79 anos e nativo da Guarda.

A conversa vai longe.

Eu, sentado quietinho no canto do bar do Maneca, ouço tudo e nada falo. Guarda as estórias para um dia escrever.

“Visse, tudo nego doixo cheio de pó de rato nos miolo! Nem tem verdade e nem mentira…MAS que a Ruiva ezésti, Ah, ela ezésti!”, arremata Zóião Mandrião do alto de sua experiência de mãos calejadas de pescador.

Pois então.

Eu sigo calado; toma outro rabo de galo e uma “gordinha” gelada que é pra rebater.

Levanto, agradeço a acolhida dos “rapazi” do boteco e tomo o rumo pra pousada pela Estrada do Cumbatá.

Passo a passo.

Noite sem Lua. Noite escura.

As aracuãs parecem me acompanhar e cantam e cantam…cru cu cru cu cu cu cu cu….

Quebra a terceira curva antes de casa e lá está ela: a RUIVA, me esperando.

– Olá, pensei que tú não vinhas?

– Nunca faltei a nenhum encontro.

– Sim, mas com a cabeça cheia de estórias lá do Bar do Maneca.

– Muitas… e todas sobre você.

– Eles falam muito e não sabem de picas.

-Pode ser, mas se apavoram.

-Bobagem… eu só quero amor, carinho e ômi bão…

-Pois então, esse não sou eu.

– É sim, é você.

Naquela madrugada eu encontrei os sonhos mais escondidos de minha vida. A Ruiva uivava e mexia e dizia versos de poesias que nunca ouvi e tudo esquentava e a terra mexia e os meus olhos viravam até que dormi.

No dia seguinte, por volta do meio dia acordei.

Tronxo, relambido e estropiado, mas feliz como o quê.

Na mesinha ao lado da cama encontrei apenas uma mecha de cabelo ruivo e uma flor.

Nunca mais duvidei da lenda da Ruiva da Guarda do Embaú e também jamais a reencontrei.

………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista e apaixonado para sempre pela Ruiva que jamais voltou. Vive na Guarda do Embaú-SC.

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