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Cadê a aliança?

Na viagem de ônibus, salvo pelo tato feminino

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Há alguns dias embarquei em Foz do Iguaçu com destino a Curitiba. Viagem noturna, ônibus confortável, poltrona reclinável, cobertor, travesseiro e aquela ilusão de que desta vez eu conseguiria dormir a viagem inteira.

Não consegui.

Por volta das quatro e meia da manhã despertei com uma sensação estranha. Olhei para a mão esquerda e levei um susto.

A aliança havia desaparecido.

A culpa, registre-se, era exclusivamente minha. Depois de perder alguns bons quilos graças aos milagres da química paraguaia, ela resolveu ficar larga. Já deveria estar no dedo médio, onde permaneceria em segurança, mas, por pura distração, continuei usando no anelar.

Em algum momento da madrugada, entre puxar a coberta, ajeitar o travesseiro e tentar descobrir uma posição compatível com a anatomia humana numa poltrona de ônibus, a aliança simplesmente resolveu seguir viagem sozinha.

Acendi a lanterna do celular e comecei uma busca desesperada.

Durou pouco.

O senhor sentado ao meu lado, com toda a educação que o horário recomendava, pediu apenas que eu apagasse a luz.

Apaguei.

Foi nesse instante que a procura pela aliança deu lugar a um problema muito maior.

Como explicar aquilo?

Passei as duas horas seguintes elaborando uma defesa que talvez nem os melhores advogados do país conseguissem sustentar.

Os argumentos até pareciam razoáveis.

“Olha, eu emagreci.”

“A aliança ficou larga.”

“Ela escapou enquanto eu puxava a coberta.”

Quanto mais eu organizava a narrativa, menos convincente ela ficava.

E havia um detalhe complicador.

Juliana e eu estamos vivendo uma fase curiosa. Por causa do trabalho, Brasília, Foz do Iguaçu e Curitiba passaram a dividir nossa rotina. Em vez de morarmos juntos, estamos nos visitando. Justamente por isso, aparecer sem aliança seria uma daquelas histórias que chegam em casa com cara de desculpa.

O ônibus finalmente estacionou em Curitiba.

Antes de pegar a mala, reuni discretamente algumas pessoas das primeiras fileiras e expliquei minha tragédia particular.

Em poucos segundos havia quatro desconhecidos procurando minha aliança debaixo das poltronas com um empenho que nem eu esperava encontrar.

A angústia ainda durou alguns minutos.

Até que a senhora sentada na primeira fileira levantou a mão.

– Achei.

Ela me entregou a aliança.

Não fez discurso.

Não deu bronca.

Mas me lançou aquele olhar que só algumas mulheres conseguem produzir. Um olhar capaz de dizer um parágrafo inteiro sem mover um único músculo do rosto.

Saí dali com a nítida impressão de que ela acabara de pensar:

“Leve. E trate de não perder de novo, infeliz.”

Coloquei imediatamente a aliança no dedo médio, onde ela deveria estar desde o início.

Confesso que nunca soube se fiquei mais feliz por recuperar a aliança ou por perceber que não precisaria defender, com cara de inocente, uma história que era verdadeira demais para parecer verdade.

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