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Linha tênue

Nada de se aposentar da vida

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Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Existe uma linha tênue entre viver e morrer, e não falo da morte propriamente dita, do corpo paralisado no fim de uma história. Falo dos dias prostrados em uma cama sem vontade de viver, da falta de ânimo, do encanto que se perde e de deixar a vida se esvair sem aproveitar cada minuto. Falo daqueles que não conseguem admirar um pôr do sol, que não conseguem dizer um “eu te amo”, que não fazem a loucura de viajar quilômetros para matar uma saudade, que não aproveitam uma longa viagem de ônibus para conhecer um lugar diferente.

A vida e a morte andam de mãos dadas e, muitas vezes, morremos antes mesmo que a morte chegue.

A manhã de sábado estava simplesmente magnífica: o sol quente, a água do mar fresca, limpa e calma. Na mesa ao lado, um grupo de amigos e familiares se divertia bebendo, comendo e cantando. Um dia bonito e, para todos nós, normal. A conversa da mesa vizinha, porém, tornou-se mais íntima e, em segundos, o assunto trabalho virou aposentadoria.

Ouvi a frase:

— Quando eu me aposentar, vou viver passeando, visitar mais minhas amigas, alugar uma casa de praia, apreciar um forró.

— Eu não sei o que vou fazer; não me vejo aposentada, parada. Disse outra.

— Quando eu me aposentar, vou ficar em casa sem fazer nada. Não vou sair, nem esses momentos eu quero; vou apenas ver TV e ficar à toa.

Automaticamente, virei-me para analisar o perfil do homem que falava em ficar parado. Embora parecesse um pouco mais velho, concluí que estava errada sobre a idade dele. O homem ao lado perguntou:

— Falta quanto tempo para você se aposentar?

— Cinco anos.

Pensei comigo: por que uma pessoa tão jovem deseja ficar parada em casa, sem fazer nada? Voltei a atenção ao mar, e a pergunta vagueou dentro de mim. Aposentadoria é, de longe, o meu último pensamento; a ideia de alguém estar diante de um mar tão lindo, em um dia tão bonito, e pensar em paralisar a vida me causava estranhamento. Eu sei, há pessoas que gostam de ficar em casa assistindo a um filme, mas é inegável que há um prazer imenso em um domingo de sol, na praia, rodeado de amigos.

Pensava: “Não quero ficar assim”. Meu pensamento me distraiu da conversa. Não sei bem a parte que perdi, mas retomei a atenção quando esse mesmo homem disse:

— Não gosto de sair, venho porque envolve trabalho e a mulher. Quando eu me aposentar, ninguém me obriga. Já terei contribuído com meu trabalho; não gosto da areia, nem do sol, nem do vento. Entrar na água? Nem se me pagarem. Não gosto de sair, não gosto de gente.

Pensei: “Que cansativo”.

Na mesa ao lado, duas senhoras; uma delas provavelmente passou dos oitenta e cinco e não está surda. Retrucaram sem se preocupar com quem ouve:

— Tem gente que já nasceu morta.

Ela se levantou da mesa, desceu os degraus de acesso à praia e desapareceu, enquanto a companheira virava um copo de cerveja.

Eu continuei vagando em mim. Que tipo de pessoa quero ser? Como quero envelhecer? O que é viver?

Então, a senhora retornou de mãos dadas com um senhor, de provavelmente oitenta e um anos. Subiu as escadas, sentou-se novamente à mesa, pediu outra cerveja, deu um beijinho no senhor e disse:

— Eu te amo! Que bom que você conseguiu ajudar seu filho e vir; tira o chinelo, a areia está fresca hoje.

Não me restou dúvida de quem eu quero ser: não quero me aposentar da vida!

…………………………….

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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