Curta nossa página


Vovô Ademar

Não atravesse se for meia-noite

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

— Se você tiver que atravessar uma mata à meia-noite, você precisa parar, pedir licença, esperar o relógio bater 00h:01 e só então atravessar.

Lorena cresceu ouvindo essa frase do vovô Ademar, um senhor cheio de histórias de assombração que jurava ver visagens por aí. Ele brigava com qualquer um pela preservação das matas e das serras. Defendia o Saci e o Curupira com unhas e dentes; jurava que os ouvia assoviar nas latas do bairro da Tijuca e na Serra do Caramba, em Cachoeiro de Itapemirim. Por ali, também morava o homem que dava nome à pedra: o Seu Caramba, um eremita conhecido pelas festas colossais no alto da montanha. O avô de Lorena garantia que os dois eram bons amigos.

Após a morte do velho, Lorena herdou o medo e evitava as matas depois das 18h. Sua amiga Paula, cética convicta, sempre ria do pavor da amiga, embora nunca debatesse.

Em um domingo de verão, as duas subiram a Pedra do Caramba. Pararam no restaurante do Pirote e a descida acabou atrasando. Ainda esticaram a noite no bar Toca do Gambá para a última cerveja e, quando se deram conta, já passava da hora de encarar a trilha na mata que liga o bairro São Geraldo ao Alto União.

Adentraram a escuridão devagar. A lua surgiu quase cheia, imponente. De repente, passos leves e um estalar de gravetos quebraram o silêncio. Algo se aproximava. Elas paralisaram. No meio do breu, Lorena se lembrou do aviso do avô. Tarde demais: os celulares vibraram avisando que era meia-noite.

O coração disparou, mas era apenas uma vaca de manchas brancas pastando no escuro. Passado o susto, a inquietação continuou a corroer Lorena. O aviso do avô ecoava em sua mente.

— Vamos, Paula… A mata é viva, meu avô avisou. Sussurrou, apressando o passo.

Quase meia hora depois, a saída da trilha já estava à vista. Elas estavam quase livres. Quase.

Um urro violento ecoou do topo da mata. O som de galhos estalando era massivo, como se um pé gigante estivesse esmagando a vegetação logo atrás delas.

O pânico assumiu o controle. Lorena disparou a correr, os pés tropeçando uns nos outros, o coração saltando pela boca.

Os passos pesados desciam o morro com violência, no encalço das duas. O som de árvores partindo ao meio e os rugidos agudos eram desesperadores. Próxima da saída da mata, prestes a abandonar a amiga para trás, Lorena gritou sem olhar:

— Corre, Paula! É o Curupira!

— Não dá! Paula gritou de volta. — Olha os passos… Estão vindo da direção errada!

Ao contrário do desespero de Lorena, um instinto primitivo tomou conta de Paula. Cética ou não, ela sentiu que precisava demonstrar respeito àquela força da natureza. Ela parou.

A coisa se aproximou como um trator pela vegetação. Paula estancou, sem ar, encarando a escuridão. O último estrondo aconteceu a meros cinco metros dela.

Então, o silêncio mais absoluto e aterrorizante tomou conta da mata.

…………………………..

Mércia Souza é escritora, colunista de jornais e revistas, e artesã crocheteira. Autora de três livros publicados — transitando entre o romance e as crônicas —, expressa sua visão de mundo tanto através das palavras quanto das linhas. Feminista, mãe e avó, reside atualmente em Cachoeiro de Itapemirim (ES), onde divide seu tempo entre a literatura, o artesanato e o amor pelas montanhas e pelo mar.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.