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Lucidez tardia

Não É Loucura, É Reação

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Nós aprendemos a chamar de loucura tudo aquilo que não conseguimos mais silenciar.

Quando uma mulher rompe, quando o corpo treme, quando a fala falha e o choro escapa, logo aparece o diagnóstico social: “ela enlouqueceu”. Mas nós sabemos não é loucura. É reação. É o organismo tentando sobreviver depois de uma longa pedagogia da violência cotidiana.

Nós fomos treinadas a suportar.

A relativizar o abuso psicológico, a normalizar o gaslighting, a duvidar da própria memória. Simone de Beauvoir já nos alertava: não se nasce mulher, torna-se e esse tornar-se, muitas vezes, passa por aprender a engolir dores que nunca deveriam ser engolidas. O que chamam de surto é, na verdade, o momento em que o corpo se recusa a continuar obedecendo.

O abuso psicológico não deixa marcas visíveis, mas reorganiza a casa por dentro.

Ele desloca móveis, quebra espelhos, apaga referências. Judith Butler nos ajuda a entender que a violência não é apenas física; ela também opera pela linguagem, pelo controle do sentido, pela repetição que corrói a identidade. Quando essa estrutura cai, o colapso parece desordem, mas é apenas o fim de um regime.

Nós não surtamos do nada.

Nós surtamos depois de sermos desacreditadas, minimizadas, culpabilizadas. Depois de ouvir que era “sensibilidade demais”, “exagero”, “coisa da sua cabeça”. Virginia Woolf escreveu que adoecer, às vezes, é uma forma de protesto silencioso contra um mundo que exige normalidade à custa da alma. O surto, então, é linguagem: diz o que já não cabia no silêncio.

Chamam de instabilidade aquilo que é lucidez tardia.

Quando finalmente nomeamos o abuso, quando retiramos o véu da idealização, quando recusamos continuar em relações que nos adoecem, o sistema reage. Djamila Ribeiro nos lembra que a desumanização começa quando negam a legitimidade da nossa dor. Por isso, nos rotulam para não nos ouvir.

Mas nós sabemos.

Não é loucura, é exaustão. Não é histeria, é memória. Não é fraqueza, é limite. E há algo profundamente político em uma mulher que interrompe o ciclo, mesmo que isso custe lágrimas, confusão e recomeços difíceis.

Se alguma de nós estiver passando por isso agora, que fique dito:

O surto não é o fim é a travessia.

E atravessar, ainda que aos pedaços, é o primeiro gesto de quem decidiu viver sem abuso.

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