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Experiências individuais

Não faça da dor uma ideologia

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Nordestina sabe: sol quente não é o fim do mundo. A gente aprende a andar na sombra, beber água, esperar a brisa. Dor também é assim, castiga, mas não pode virar clima permanente.

Existe um risco silencioso quando sofremos demais: transformar a dor em lente definitiva. Começar a olhar o mundo apenas por ela. E aí o problema não é mais o que aconteceu é o que passamos a acreditar sobre a vida.

A sociologia já mostrou que experiências individuais podem se cristalizar em disposições duradouras. Pierre Bourdieu chamaria isso de habitus: aquilo que a gente incorpora e passa a reproduzir quase automaticamente. Se não tivermos cuidado, o sofrimento vira postura. A desconfiança vira identidade. O desencanto vira método.

Mas dor não é destino. É acontecimento.

Hannah Arendt lembrava que a condição humana é marcada pela natalidade a capacidade de começar de novo. Todo dia carrega a possibilidade de reinício. A dor pode até nos atravessar, mas não precisa definir o que faremos depois dela.

Há quem transforme frustração em cinismo. Há quem transforme decepção em ódio generalizado. É compreensível, mas é perigoso. Porque quando odiamos a vida, entregamos a ela um poder que ela não tem: o de nos esvaziar por completo.

A vida é maior do que o episódio que nos feriu.

Não é negar o sofrimento. É colocá-lo no lugar certo. Ele ensina, mas não governa. Ele marca, mas não dirige. Como diria Axel Honneth, reconhecimento é fundamental para a dignidade e isso inclui reconhecer que continuamos dignas de alegria, mesmo depois do que doeu.

Tem uma sabedoria simples nisso tudo: quem já atravessou seca sabe valorizar chuva. Quem já sentiu medo de não se encontrar de novo aprende a celebrar quando se reconhece no espelho.

Não deixe a dor virar filosofia permanente.

Não transforme um capítulo em tese definitiva.

Não entregue à ferida o comando da narrativa.

A vida não é só o que aconteceu com você.

É também o que você decide fazer depois.

E, sinceramente, odiar a vida é dar vitória demais para quem não merece.

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