Experiências individuais
Não faça da dor uma ideologia
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Nordestina sabe: sol quente não é o fim do mundo. A gente aprende a andar na sombra, beber água, esperar a brisa. Dor também é assim, castiga, mas não pode virar clima permanente.
Existe um risco silencioso quando sofremos demais: transformar a dor em lente definitiva. Começar a olhar o mundo apenas por ela. E aí o problema não é mais o que aconteceu é o que passamos a acreditar sobre a vida.
A sociologia já mostrou que experiências individuais podem se cristalizar em disposições duradouras. Pierre Bourdieu chamaria isso de habitus: aquilo que a gente incorpora e passa a reproduzir quase automaticamente. Se não tivermos cuidado, o sofrimento vira postura. A desconfiança vira identidade. O desencanto vira método.
Mas dor não é destino. É acontecimento.
Hannah Arendt lembrava que a condição humana é marcada pela natalidade a capacidade de começar de novo. Todo dia carrega a possibilidade de reinício. A dor pode até nos atravessar, mas não precisa definir o que faremos depois dela.
Há quem transforme frustração em cinismo. Há quem transforme decepção em ódio generalizado. É compreensível, mas é perigoso. Porque quando odiamos a vida, entregamos a ela um poder que ela não tem: o de nos esvaziar por completo.
A vida é maior do que o episódio que nos feriu.
Não é negar o sofrimento. É colocá-lo no lugar certo. Ele ensina, mas não governa. Ele marca, mas não dirige. Como diria Axel Honneth, reconhecimento é fundamental para a dignidade e isso inclui reconhecer que continuamos dignas de alegria, mesmo depois do que doeu.
Tem uma sabedoria simples nisso tudo: quem já atravessou seca sabe valorizar chuva. Quem já sentiu medo de não se encontrar de novo aprende a celebrar quando se reconhece no espelho.
Não deixe a dor virar filosofia permanente.
Não transforme um capítulo em tese definitiva.
Não entregue à ferida o comando da narrativa.
A vida não é só o que aconteceu com você.
É também o que você decide fazer depois.
E, sinceramente, odiar a vida é dar vitória demais para quem não merece.