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O mundo é finito

Não Há Reedições do Mesmo Encontro

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Algumas pessoas só entendem tarde demais que a vida não oferece duas vezes a mesma pessoa. Não porque o mundo seja cruel, mas porque ele é finito. Nós costumamos confundir permanência com garantia, presença com disponibilidade eterna. Achamos que o outro estará ali amanhã, depois, quando for mais conveniente. Mas a vida, como já nos alertou Clarice Lispector, não espera que estejamos prontos para sentir.

Nós aprendemos a duras penas que as pessoas não se repetem. Podem surgir outras, semelhantes talvez, mas nunca iguais. Cada encontro carrega um tempo específico, um contexto irrepetível, uma versão nossa que já não existe mais. Quando deixamos passar, não perdemos, apenas alguém perde a possibilidade daquele vínculo naquele momento exato da vida.

Há uma arrogância silenciosa na ideia de que sempre haverá uma segunda chance. Como se o afeto fosse renovável, como se o cuidado pudesse ser adiado sem custo. Roland Barthes já nos lembrava que o amor se constrói no detalhe, no gesto pequeno, na atenção cotidiana. Ignorar isso é tratar o vínculo como algo abstrato, quando ele é, antes de tudo, concreto e frágil.

Nós também demoramos a entender que as pessoas mudam enquanto esperamos. Elas seguem vivendo, amadurecendo, se protegendo. O que um dia esteve disponível pode se tornar inacessível não por vingança, mas por lucidez. Às vezes, o afastamento não é punição é consequência. E isso dói mais do que qualquer rompimento explícito.

A literatura insiste nesse ponto porque a vida insiste também. Milan Kundera escreveu que a existência não permite ensaios. Nós não testamos caminhos para depois escolher o melhor; nós escolhemos vivendo. E cada escolha implica renúncia. Inclusive a renúncia de quem não soubemos cuidar a tempo.

Que isso fique como aprendizado coletivo: nós não devemos tratar pessoas como capítulos que podem ser relidos à vontade. Algumas histórias só fazem sentido uma vez. A vida continua quando aprendemos a honrar os encontros enquanto eles acontecem, a cuidar antes que vire ausência, e a compreender que perder o tempo certo é, muitas vezes, perder tudo mesmo que só percebamos quando já é tarde demais.

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