Rindo sem pedir licença
Não me tragam de volta ao lugar onde quase me perdi
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Se vocês me virem vivendo a minha vida, me permitindo existir, rindo sem pedir licença, sendo eu de novo me deixem lá. Não tentem interromper esse reencontro. Vocês não sabem o quanto eu tive medo de não voltar a ser quem eu era.
Há um tipo de dor que não grita, mas dissolve. Ela não destrói de uma vez; vai apagando aos poucos. Primeiro some a coragem, depois o desejo, depois o reconhecimento no espelho. Quando finalmente percebemos, já estamos vivendo no modo de sobrevivência, não de existência. Recuperar o “eu” depois disso não é simples é quase um ato político.
A filosofia já nos alertou sobre esse risco. Para Heidegger, o maior perigo não é a morte, mas a perda de si no cotidiano impessoal, no “se” o modo como vivemos segundo expectativas alheias, anestesiados, sem autenticidade. Quando alguém quase nos arranca de nós mesmos, o retorno não é garantido. Ele precisa ser construído, dia após dia, com medo mesmo.
Por isso, quando alguém volta a viver, não está apenas “seguindo em frente”. Está desafiando tudo aquilo que tentou lhe convencer de que não havia mais nada ali. Está afirmando que sobreviveu a um apagamento. Judith Butler nos lembra que certas vidas são constantemente colocadas em risco simbólico deslegitimadas, silenciadas, corroídas. Continuar sendo, nesses casos, é resistência.
Então, se me virem inteira outra vez, não romantizem, não interrompam, não questionem. Não foi fácil chegar aqui. Houve noites em que pensei que nunca mais me encontraria. Houve dias em que o medo era justamente esse: não voltar.
Hoje, se estou aqui, é porque consegui.
E isso, por si só, já é muito.