Cuidemos de nós
Não Nos Sacrifiquemos por Quem Não Nos Sustenta
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Não morremos por homem.
Aprendemos isso quando entendemos que o amor, quando é assimétrico, não é virtude é armadilha. Nós crescemos ouvindo que amar exige entrega total, renúncia, paciência infinita. Mas ninguém nos ensinou que há pessoas capazes de transformar nossa ausência em detalhe e nosso luto em cenário. Há homens que seguem vivendo enquanto nós ficamos tentando explicar por que doeu tanto.
Nós não romantizamos mais o sacrifício.
Não confundimos intensidade com dignidade. Não chamamos de amor aquilo que nos esvazia, adoece ou nos pede silêncio para sobreviver. O mundo nos treinou para suportar, mas a vida nos ensinou a escolher. E escolher, às vezes, é sair inteira ainda que chamem isso de frieza.
Existe uma pedagogia cruel ensinada às mulheres: a de morrer um pouco todos os dias para manter alguém confortável. Nós desaprendemos. Porque já vimos o suficiente para saber que há quem atravesse o nosso velório com outra mulher no braço, como quem atravessa uma sala qualquer. Não por maldade extraordinária, mas por normalização da substituição. A dor, para alguns, é descartável.
Por isso, nós ficamos.
Ficamos conosco. Ficamos vivas. Ficamos atentas. Não investimos mais nossa energia em promessas sem prática, em discursos sem ética, em afetos que só funcionam quando nos anulamos. Amor não é prova de resistência; é acordo de presença.
Quando nos escolhemos, o mundo tenta nos culpar.
Dizem que estamos duras, exigentes, difíceis. Nós respondemos com lucidez: aprendemos. Aprendemos que não devemos morrer por quem não ficaria para cuidar dos nossos. Aprendemos que amar não pede funeral, pede reciprocidade.
E se algo precisa ficar como aprendizado coletivo, é isto: nós não nascemos para sermos mártires de relações que nos consomem. A vida continua quando nos colocamos no centro do que sentimos, quando preservamos nossa dignidade e quando entendemos que viver plenamente é o maior ato de amor que podemos oferecer a nós mesmas.