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Nostalgia

Naquela tarde, o cinema

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Sempre que for ao banheiro: leve a sua arma, man!”
(Tarantino/Pulp Fiction, 1994)

1.
Cara de bandido. Jeito de marginal. Roupa de periferia. Ideias de rato. O sujeito ganhava a vida com pequenos “trabalhos” para a turma da pesada. Entre cobranças de pequenos comerciantes e um “aviãozinho” com “pó blue” pra bacanas da Zona Sul, dava uns tiros e era viciado em cinema. Nas tardes calorentas, nos velhos cinemas dos subúrbios.

2.
Naquela tarde, entrou no mercadinho e comprou seis latinhas de cerveja – nenhuma a menos nem a mais -, um pote de pepino em conserva, mortadela e pão. Sentado na praça, em frente ao Cine Cairo, realizou o ritual. Tirou a navalha da mochila, abriu o pote e cortou simetricamente os pepinos no sentido longitudinal. Depois o pão e a mortadela. Abriu a cerveja e depois de um longo gole, mastigou sempre por dez vezes o sanduíche antes de engolir. Era mesmo um cara disciplinado.

“Não, man… sou de-ter-mi-na-do e movido pela razão… a razão de minhas regras… Sacô, man?”.

3.
Dez para às três da tarde. O homem nasceu em família classe média e frequentou boa escola onde conheceu o Cine Clube e se apaixonou pelo cinema. Na juventude, alistou-se na Marinha e conheceu muitos portos no Brasil e pelo mundo. Foi expulso da instituição por trambicagem. Aos 16 anos, pegou uma mochila e sumiu de casa para sempre. E assim, aos trancos e barrancos, chegara até a porta do Cine Cairo naquela tarde de 40 graus à sombra. Comprou o ingresso, entrou e sentou-se na décima terceira fila, pois jamais sentaria em outra. Na tela, Pulp Fiction, de Tarantino.

4.
Repetia cada palavra, cada diálogo “quente” dos personagens; sabia todos de cor. E curtia as trilhas sonoras imbatíveis dos filmes de Tarantino. Filme rolando na tela e o cara abrindo e tomando calmamente as latinhas de cerveja; e comendo os sanduíches de mortadela com pepinos em conserva. Cinema vazio – e ele sabia que seria assim -, pois conhecia a rotina do Velho Cairo. Segundas-feiras, dia de pessoas com “cabeças de camarão” zanzando pelas ruas, pelos hotéis baratos e banheiros fedorentos. E o Cine Cairo sempre vazio.

 

5.
Naquela tarde, o cinema na sessão das 15h lhe guardara uma surpresa. Luzes acesas, o cara levantou e buscou a saída da sala. Percebeu um vulto caminhando lentamente atrás dele. Não demonstrou qualquer reação; apenas chegou ao hall do cinema e foi ao banheiro. De lá pode ver a moça de cabelos presos em coque, camisa abotoada no pescoço, mangas compridas, vestido até as canelas, sapatos pesados e levando nas mãos um livro. Mulher moça, bem jovem. Ela esperou ele deixar o banheiro e continuou caminhando mantendo certa distância.

“Mas que diabo será isso?… Essa mulher está me seguindo, sei que está!”

Já na calçada, ele atravessou a rua e sentou-se no banco da praça. A mulher fez o mesmo. Chegou até ele e sentou-se no banco ao seu lado.

6.
“Girl, You’ll Be a Woman Soon / Garota, logo você será uma mulher”
(Urge Overkill / Filme Pulp Fiction – Tarantino)

— O sr. se incomoda de conversar comigo um minutinho? – disse a moça.

O homem olhou meio desconfiado e respondeu curto.

— Já sentou, né? Ok.

A mulher não perdeu o jeito sério, concentrada e foi direta.

— Tenho observado o sr., nas últimas segundas-feiras, sempre vindo ao cinema na sessão das 3 da tarde, faça chuva ou Sol.

O cara mediu a moça, fez segundos de silêncio e também foi direto.

— Você anda me seguindo? O quê que há, hein?

A moça abriu o livro de capa grossa de couro preto e respondeu, suavemente, lendo uma frase.

— “Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tendo bom ânimo, eu venci o mundo: João 16:33”.

O homem sentiu um calafrio. Meio atônito, não sabia como continuar. Disse então.

— João? Quem é João? Ele te mandou aqui?

— Calma… De certa forma, sim. Se o sr. permitir eu posso explicar.

— Tá ok. Tô te ouvindo, moça…

A mulher falou das palavras proféticas de João, do livro que trazia nas mãos, da vida, da morte e do depois. Nada de verdades absolutas, apenas toques de fé e esperança. Explicou que era missionária de uma irmandade centrada nas palavras de Jesus Cristo e que não queria nada além da atenção do cara.

— É isso, nada mais do que um bom encontro e uma conversa boa. – Finalizou.

— Entendi. – disse o homem. Mas você vai tentar me vender esse livro aí, não vai?

— Não, não, sr. Esse fica “emprestado” para o sr. ler e para a gente se encontrar nas próximas segundas-feiras por aqui.

A mulher levantou e despediu-se dele com um sorriso:

“Então, até Segunda-feira”.

7.
A vida nas grandes cidades corre desenfreada feito galinha fugindo da panela em festa no morro em que o homem mora num pequeno “cafofo”. Durante a semana, aquele encontro casual ficou martelando na cabeça do cara. Tentava desligar, mas a presença forte e suave da moça insistia em não deixar a cena. Perambulou por horas pela cidade, buscou inventar algo para fazer e nada. Ela ali presente. Decidiu abrir o livro de capa de couro e lá estava: A Bíblia Sagrada.

“Porra! Agora essa de religião? Coisas de harmonia, comunhão, vida eterna…Cacete… Era só o que me faltava, “man”!

No pequeno mercado, comprou pão, mortadela e o inseparável vidro de pepinos em conserva. Sentou na praça do metrô e fez o sanduíche detalhadamente. Para matar o tempo, começou a ler o Novo Testamento, pois conhecia alguma coisa do tal de Jesus e achava o cara “bem maneiro, man”, apesar de meio bobão. E assim foi ao longo da semana até chegar a Segunda-feira.

8.
“Existirá mesmo a felicidade eterna, meu querido? Talvez nem exista essa tal… Amanhã, restarão lençóis manchados, em desalinho, rostos amarrotados e dois corações eternamente a vagar”
(Miolo: Cântico para Ninar Pirados e Piradas, Gilberto Motta 1979)

Dez para as 3h da tarde, Ela estava lá; mesmo banco, mesma roupa austera, a mesma imagem de “santinha” que o acompanharia daqueles dias em diante. Ao lado do banco, com ela, uma pequena mala amarrada com um cinto vermelho como trinco improvisado. O cara estranhou, mas era acostumado a situações absurdas e tocou a vida em frente. Trocaram um aperto de mão, se olharam nos olhos e nada disseram. Atravessaram a rua; o homem comprou os ingressos e dois saquinhos de pipoca da amiga de sempre, a vendedora do cinema, Rosa, a gorda. Entraram no Cine Cairo e sentaram na décima fileira com a sala já às escuras. Na tela, o filme “Giants: Assim Caminha a Humanidade”, clássico antigo do diretor George Stevens 1956. Com o filme rolando, a moça comia nervosamente a pipoca e começou a chorar suavemente, baixinho. E o cara travado. Surpreso, pois já estava mais acostumado a essas “pessoalidades” tão humanas. Duas horas e meia de filme. Grande história: amores traídos, briga em família, cobiça, petróleo, alcoolismo, vingança e amor/desamor. “Tragédias de amor”, pensou o homem…Vidas que se encontram e se perdem. Depois de anos – e várias sessões especialmente de filmes de Tarantino -, aquele filme tocou fundo o ainda existente coração emocional do cara. The End.

9.
“Há encontros e desencontros e as pessoas não saem as mesmas que entraram neles”
(Miolo: Cântico para Ninar Pirados e Piradas, Gilberto Motta 1979)

Na saída do Cine Cairo, a rua ainda calma, num segundo, virou praça de guerra: bombas, granadas explodindo, a PM com o tático móvel Brucutu e as gangues/milícias em luta pelo domínio do território do velho cinema. Luta de falanges pelo tráfico de drogas e proteção dos comerciantes em troca de pesadas taxas de exploração. O cara conhecia bem a situação causada por seus “empregadores” para pequenos trabalhos de sobrevivência.

“ABAIXA!!!”, gritou Rosa, a pipoqueira.

E bala e gente gritando e crianças chorando.

Caos, conflito e repressão nas bandas do velho Cairo.

O cara puxou a moça pelo braço, porém sem tempo de impedir o tiro certeiro. Ela caiu na calçada de entrada do cinema. Primeiro soltou no chão a pequena mala com o cinto vermelho, depois olhou para o homem e caiu sem vida. Ele abraçou a moça/mulher, pegou a mala e sumiu pela ladeira já escura, na noite eterna que caia sobre a cidade.

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*Trilha para o conto: 
https://www.youtube.com/watch?v=s9PcpkMqtp8&list=RDohNqsS0sh6w&index=27 

*NOTA DO AUTOR: a sequência deste conto escrito em Agosto de 2026 é o conto Miolo: Cântico para Ninar Pirados e Piradas, escrito em 1979, ampa SP.

Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador de encontros e desencontros em torno da sobrevivência e do amor casual. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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