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Ventania

Naquele outono

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Tasso Scherer

1.
Bateu um vento diferente.

Descemos o Morro do Urubu buscando a Guarda.

Tropeçamos no final da trilha e batemos a cabeça nas pedras da descida.

Acordamos hora depois com os amigos de sempre cuidando.

“Caraca, vocês são loucos de subir o Urubu na virada do Verão para o Outono”

2.
Durante toda a manhã fiquei lembrando a mesma história que não me largava feito chiclete.

“A história do cara que um dia subiu o Morro do Urubu e nunca mais desceu”

3.
Fomos almoçar no restaurante Guardião.

Pedimos “Anchovas com alcaPOORRAS, PARRA!…Não com AlcaPARRAS, PORRA”.

Depois tomamos uns tragos de licor Frangélico, o das 7 bruxas.

Mariana colocou um som:

“Mardito fiapo de manga preso no maxilar inferior”, da Banda Joelho de Porco.

4.
Tomamos uma porrada com o Joelho e resolvemos sair em trilha para o Vale da Utopia.

Uns dez km em direção à praia da Pinheira por dentro da serra beira mar.

Ninguém loucão e nem nada de drogas, sexo e rock in roll.

Pois então fomos.

Chegamos às pedras do Costão e viramos à esquerda.

Caímos na Prainha e subimos.

Lá em cima do morro vimos o primeiro disco voador.

“Cara, disco voador? Tá maluco?”, disse a Mariana.

Respondi apenas que “Talvez fossem luzes atmosféricas numa metamorfose galáctica transcendente”.

Seguimos firmes e fortes.

Chegamos na Praia do Maço.

As luzes continuavam a nos acompanhar.

“Cara, a gente nem se chapou e ninguém aqui tá doidão!”, disse Mariana.

E a música do Joelho de Porco teimava em tocar no celular dela.

“Mardito fiapo de manga preso no maxilar inferior”.

Chegamos à Ponta das Andorinhas.

5.
Procuramos descer para a Praia de Cima, já na Pinheira, com muito cuidado.

Escorregamos todos e caímos na areia da praia.

O Léo, maluco nosso conhecido do pedaço socorreu e apenas disse:

“Viram as luzes? Os discos voadores? Não?…”

Vimos ou não e jamais disse ao Léo se vi ou não.

6.
Anos depois, mais experiente, voltamos naquele lugar entre a Pinheira e a Guarda do Embaú.

Tudo estava lá.

Igualzinho.

Apenas nós já éramos outros.

Nunca mais vimos e voamos sob as luzes.

Nunca mais discos voadores.

…………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador de ventanias, Outonos e tantas Estações capazes de liberar a criatividade e as emoções. Vive na vila pesqueira da Guarda do Embaú, SC.

*Foto: Tasso Scherer Florianópolis, SC.

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