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Cena dantesca

Narrativa da extrema-direita é aposta furada para futuro que não virá

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Mês do desgosto, agosto antecede as eleições presidenciais, também conhecido como período de golpes a gosto. Estamos a 49 dias do primeiro turno das eleições presidenciais. O tempo é de construir ou alimentar narrativas mirabolantes, furadas e pouco confiáveis, todas objetivando fisgar eleitores desavisados. Teorias da conspiração à parte, qualquer brasileiro comum precisa entender que, conforme assinado pela colega Sonja Tavares e publicado nessa sexta-feira (14), nada na política brasileira acontece por acaso.

Imaginem na família de Jair Bolsonaro. Como cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça, tudo que vier da família Bolsonaro e dos bolsonaristas pode soar como piada ou com brincadeira de mau gosto e, portanto, não me atingir como cidadão ou como eleitor. Entretanto, não há como deixar de ver com desconfiança algo de tamanha carência de verdade. Além de saber que a história de sua filiação ao Missão é conversa para boi dormir, o candidato Flávio Bolsonaro e sua trupe sabiam há pelo menos duas semanas que alguma coisa estava acontecendo em seu gabinete.

Essa alguma coisa era o preenchimento inconsistente de sua ficha de filiação à legenda do também presidenciável Renan Santos. Mesmo com conhecimento amplo e prévio de uma eventual safadeza, o senador do PL preferiu aguardar a undécima hora para, com o devido e faccioso estardalhaço, atribuir o episódio a um ataque hacker ao Tribunal Superior Eleitoral, tese óbvia e rapidamente negada pela Corte. Por mais leigos que sejamos, como acreditar que o TSE vai engolir uma filiação partidária com CPF e endereço genéricos.

Será que alguém acreditou na inaceitável tese de que a Corte Eleitoral havia barrado a candidatura do primogênito de Jair Bolsonaro? Provavelmente os que um dia imaginaram extraterrestres aportando em Brasília para impedir a posse de Lula da Silva para seu terceiro mandato como presidente da República eleito democraticamente. Esses morrerão acreditando que Lula é ladrão e Flávio 01 é um dos anjos do clã Bolsonaro. Os defensores do golpe também estão fechados com o espetáculo circense do candidato da extrema-direita. É assim que agem os pobres de espírito.

Eles usam a confusão como princípio para, no minuto seguinte, se apresentarem como vítimas da situação que criaram. O enredo é antigo, mas ainda tem a convivência de bárbaros, vândalos, ingênuos, omissos e falsos brasileiros, aqueles que pensam que o nada um dia lhes dará tudo. Ledo engano. Para os minimamente inteligentes, está claro que a narrativa tem objetivos futuros. Aliás, futuro que nunca mais terão. Com certeza, os sem projetos, os defensores do caos e os contrários à democracia usarão a desmascarada peripécia da trupe do PL como justificativa para a derrota do bolsonarismo no dia 4 de outubro.

Mais uma vez, a facção tomará a Avenida Paulista e a orla do Rio de Janeiro para, como simulacros de patriotas, berrarem contra o sistema eleitoral do país. Novamente criaram a dúvida para amanhã questionar as urnas, consequentemente o resultado das eleições. Para sorte do Brasil e do povo brasileiro, coube ao ministro “bolsonarista” Nunes Marques engavetar a dantesca cena de Flávio Bolsonaro, o candidato dos fatos irreais. Escarcéus piores estão por vir. É só uma questão de tempo. Indesejáveis do ponto de vista político, os bolsonaristas talvez nunca percebam que é melhor lutar por algo do que viver para nada.

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Matuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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