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Caminhos tortos

Negacionismo azeda antes da água virar vinho

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Mathuzalém Júnior - Foto Rafa Neddermeyer/ABr

Será que um dia todos os brasileiros conseguirão ouvir a voz da razão? Com todas as vênias, respondo negativamente. Digo não com todas as letras, embora viva em uma quadra da vida na qual a opinião se tornou algo complicado de ser individualizado. Digo não pensando, principalmente, naquele núcleo político que se acostumou a quase obrigar os brasileiros a pensarem igual a eles. Para esses, a consciência política é supérflua. Importante é desqualificar o que é bom, negar o que é óbvio e desacreditar aqueles que pensam cientificamente até o fim.

A ordem vigente no seio da família negacionista é mentir mesmo que a verdade seja incontestável. Por isso, minha resposta negativa é a mesma desde o início de 2021, auge da pandemia de Covid-19 no Brasil. Como hoje, naquela oportunidade ouvia em qualquer local público que a calamidade transformaria o povo. No fim da desgraça, quem sobrasse seria forçosamente melhor. A mentira começou como verdade exatamente pelas pessoas que só sabem fazer política com o sofrimento da população.

Quem não se lembra de que foi justamente na fase crítica do vírus que um membro do governo anterior sugeriu passar a boiada sobre toda a legislação ambiental? A ideia era liberar as florestas e todos os demais biomas para exploração dos madeireiros, garimpeiros e, sobretudo, do pessoal do agronegócio, então a menina dos olhos do presidente da época. Se ninguém lembra no que deu, vale avivar a memória. Além do maior índice de queimada da Amazônia, da exploração criminosa das terras indígenas e do quase esgotamento do Pantanal, o Amazonas ficou sem água e sem oxigênio.

Parecia pouco para os negacionistas. A natureza esperou seu próprio tempo e hoje as vítimas são os gaúchos. No Rio Grande do Sul, estado com expressivo quantitativo de representantes do agronegócio, os deuses do ambiente cobraram naufragando Porto Alegre e outras dezenas de importantes cidades locais. A continuar o tratamento dado pelos negativistas ao meio ambiente, não demora e o Cerrado, que continua devastado, também responderá sem qualquer complacência a seus destruidores. Enquanto podem, ambientalistas e cientistas recomendam ao empresariado do setor que busquem o pote da ganância com menos ímpeto.

Como um pedido de clemência, eles alertam dia e noite para a possibilidade real de o Centro-Oeste, outro celeiro do agro, sofrer com uma seca sem precedentes. Depois da bica seca, de nada adiantará acender velas para São Pedro. Também será tarde demais para pedir ajuda a Zeus, senhor do Monte Olimpo, bambambã da mitologia grega e chefão dos deuses, dos homens, do céu e da chuva. Dizem que seus poderes acabaram por conta da ganância, da incompetência e da corrupção entre os homens públicos eleitos com a obrigação de zelar pelo meio ambiente.

Não fizeram e não fazem nada para respeitar a natureza que o Deus maior nos deu para preservar a vida de todos. Às vezes, a imbecilidade humana ultrapassa as piores queixas climáticas. Esta semana, uma empresária e influenciadora mineira associou a tragédia do Rio Grande do Sul a religiões de matriz africana. Segundo ela, o estado é o maior em número de “terreiros de macumba”, o que motivou os temporais e a consequente enchente. Que Zeus e todos os deuses do ambiente transbordem sua alma e seu coração de sensatez. Se não conseguirem, que a transportem como entulho para Porto Alegre. Como veem, ninguém muda da água para o vinho depois de uma gripezinha sem importância ou de uma tempestade fabricada pelos comunistas. Esses tipos azedam antes.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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