Menino chatinho
Nikolas aprende que com chuva não se deixa gado junto da cerca
Publicado
em
Toc toc toc. Quem bate? É Nikolas, o menino chatinho! E o que é você quer? Seus pés inchados não enganam ninguém! Aliás, como eles incharam se a maior parte de sua espalhafatosa caminhada foi feita sobre a carroceria ou na cabine da caminhonete vermelha? Deixa isso pra lá, São Pedro. Estou ligando para saber a razão de tanta sacanagem. Depois de me imaginar caminhando 740 km, me autoconcedi um abatimento, fiquei nos 240km, mas vossa reverendíssima (é isso mesmo?) não permitiu que eu chegasse nos calcanhares de Alexandre de Moraes. Nos de Lula eu sabia que seria impossível. Por que esse castigo?
Prezado São Pedro, apresentei 22 projetos para liberar verbas para que sua festa fosse bem melhor do que a de São João e, sem mais e nem menos, o senhor me apronta essa. Nós havíamos combinado uma chuvinha que molhasse somente os pés do meu gado. Mas vossa santidade me aprontou algo muito pior do que a vitória de Luiz Inácio sobre meu ídolo emocional, sensorial e sexual, o homem que amou os pobres, acolheu os doentes e orou pelos atingidos pela febre da Covid. Com a honra de Deus, eu também sou gado, mas ele é um santo. E o senhor me solta dois raios seguidos no mesmo lugar. Um contra mim e outro contra quem nunca odiou nem um sapo.
Com todo respeito papal, mas, pior do que sua cara de paisagem ao saber da transferência de papi Jair da pensão da Polícia Federal para a Papudinha, foi me segregar na Praça do Cruzeiro de Brasília. Se o senhor não me conhece, sou a excelência Nikolas Ferreira, o chupetinha do PL do Valdemar. Merecia mais respeito. A chuva que vossa divindade derramou sobre a Capital do Brasil que eu amo mesmo debaixo de temporal terminou com meu show bem antes do tempo. Me perdoe, mas haverá forra para essa brincadeira de mau gosto. Para agradar o gado, tive de me mostrar como um pinto molhado. Logo eu, uma excelência que já fez cócegas nas costas tosquiadas de Donald Trump e fez cachos na careca do Eduardo, o 03.
Definitivamente, acho que vossa majestade celestial realmente não me conhece. Se conhecesse, não me deixaria discursar para os gatos pingados que sobraram de minha caminhada logo na Praça do Cruzeiro, local onde simbolicamente vive o comunista sacramentado e atleticano roxo Juscelino Kubistchek. Não conheci o tal JK, mas soube que foi dele o projeto para construção do Palácio do Planalto defronte ao prédio do Supremo Tribunal Federal e bem longe da Papudinha, onde, com toda injustiça de Xandão, meu guru Papudão descansa o sono dos justos.
São Pedro, vossa sapientíssima figura agiu como um desses pastores que mentem diariamente tentando estimular suas ovelhas a aumentar o dízimo. Me puniu apenas porque surrupiei alguns kms do que havia prometido? O senhor me obrigou a rezar para um bando de gente que achou que eu iria mesmo soltar o Bolsonaro. Logo eu que sempre associei liberdade àquele bairro oriental de São Paulo. Eu já sou um santo e tenho horror aos que se dizem anjos, mas mentem que são mitos, se elegem presidente e não produzem nada de útil para o país, para seu povo, muito menos para mim. Simão Pedro, o padroeiro dos pescadores, ouviu calado enquanto pensava o que fazer.
Reagiu após o apóstolo de Jair blasfemar e dizer que, caso fizesse sol na Capital, poderia repensar e até votar em Lula em outubro. Associando a blasfêmia à possível candidatura de Nikolas contra 01, São Pedro não pensou duas vezes, perdeu o controle das águas que caem dos céus e sequer teve tempo de um embargo auricular com Zeus, o principal deus do raio na mitologia grega. O resultado? A caminhada terminou mais sem graça do que começou. Xandão almoçou em paz, o gado se encolheu com tanta água e Bolsonaro continua preso. Mito por mito, a moral da história é simples: com São Pedro não se brinca. Qualquer trabalhador da roça sabe que, em dia de chuva, não se deixa o gado perto da cerca. O risco é grande da queda de um raio que o parta.
………
Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras