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Fronteira invisível

Ninguém sabe o que acontece depois da porta

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma fronteira invisível entre aquilo que mostramos e aquilo que vivemos.

Ela costuma começar na porta de casa.

Do lado de fora, somos profissionais, professores, mães, pais, amigos, pessoas funcionais.

Do lado de dentro, às vezes somos apenas alguém tentando entender como chegou até ali.

A sociedade moderna valoriza muito a capacidade de funcionar.

Trabalhar.

Produzir.

Responder mensagens.

Pagar contas.

Comparecer.

Sorrir.

Continuar.

Castel já nos ensinou a pensar sobre as fragilidades produzidas pela própria organização social. Há pessoas que parecem absolutamente integradas até que alguma coisa rompe a delicada estrutura que sustentava sua rotina.

Uma doença.

Um desemprego.

Uma separação.

Um luto.

Uma dívida.

Uma perda.

E então descobrimos que aquilo que chamávamos de estabilidade talvez fosse apenas uma combinação temporária de circunstâncias.

Por isso tenho certa desconfiança das pessoas que distribuem conselhos sobre como alguém deveria viver.

Quase sempre aconselham olhando de fora.

É fácil recomendar coragem quando não somos nós que precisamos atravessar a ponte.

A vida dos outros parece simples quando observada à distância.

De perto, quase sempre existem detalhes.

É aí que a antropologia cotidiana se torna interessante.

Uma pessoa não é apenas aquilo que faz.

É também aquilo que carrega.

Memórias.

Medos.

Afetos.

Dívidas.

Desejos.

Vergonhas.

Esperanças.

Há uma vida inteira acontecendo por trás de cada comportamento.

E nós raramente temos acesso a ela.

Talvez por isso a prudência seja uma forma de inteligência.

Antes de perguntar “por que essa pessoa não faz isso?”, talvez devêssemos perguntar “o que eu não estou vendo?”.

Essa pergunta muda tudo.

Porque reconhecer que não sabemos é o primeiro passo para não transformar ignorância em julgamento.

E talvez ninguém precise conhecer todos os nossos bastidores.

Mas todos nós merecemos que, pelo menos uma vez, alguém tenha a delicadeza de lembrar que eles existem.

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