Português escorreito
No boteco ou na igreja, nem tudo que se vê é o que parece ser verdadeiro
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Dia desses fui surpreendido pela reação negativa de amigos novos, velhos companheiros de boteco, parceiros de ocasião e colegas do zap zap sobre a história de uma missa em uma igreja do subúrbio do Rio de Janeiro. Não era uma igreja qualquer, mas sim o templo de veneração de um dos santos de maior devoção do povo carioca: São Jorge, parceiro quase inseparável de São Judas Tadeu, não por acaso ambos simpáticos às causas do Flamengo, também conhecido como ópio do povo. Era um domingo festivo e dia de Fla x Flu. Por essas razões, o celebrante resolveu encerrar mais cedo a cerimônia eucarística, mas antes pediu atenção aos paroquianos da comunidade atenção ao quadro de avisos.
Não tive tempo de perguntar ao representante do falecido hermano Francisco se o texto havia sido transcrito de templos argentinos ou traduzido do hebraico para o inglês do Ceará ou, quem sabe, para o japonês em braile . Antes de começar a ler, fui informado que o sacerdote exigiu do beato chefe escritas em português escorreito. Nada que pudesse confundir a turma desletrada de línguas. Soube, por exemplo, que estavam proibidos termos como leiaute, becape, upigreid, back, sale, crack, snob, fashion, food truck ou delivery. Vocábulo do Satanás de rabo, o fuck poderia acabar em expulsão.
Nada contra o “inglesamento” do português, mas defendo com pan e shabon nossos pitacos na linguística do Rei Charles. Só para ilustrar, foi com os irmãos cearenses que aprendi que sair pra night de bike quer dizer sair para a noite de bicicleta. Mais interessante foi descobrir que cashew é o seu, o meu, o nosso caju. Como caju rima com palavras de sentido unicamente tupiniquim e o povo besta do outro lado do oceano se recusou a aceitar a pronúncia certa, melhor ter sido inglesado.
Voltando ao quadro de avisos da igreja de minha infância, a ordem era para que nenhum pároco ficasse avexado, ou seja, que tudo fosse escrito com melhor suburbuês, o idioma falado, ouvido e televisionado naquela região mais charmosa do Rio de Janeiro. O primeiro aviso do quadro negro, que era verde, estava grifado: Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças. Na sequência, a informação é que o preço do curso sobre Oração e Jejum não incluía refeições. Em seguida, o diretor de Esportes convocava o bairro para a continuação do torneio de basquete das paróquias: “Venham nos aplaudir. Vamos tentar derrotar o Cristo Rei”.
Pior do que vencer o mestre invencível foi o chamado do coroinha mais antigo: “Semana que vem, às sete, no salão da igreja, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de William Shakespeare. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia”. Obviamente que o quórum foi baixíssimo. O que dizer do chamamento para o bazar beneficente. Aí o texto foi escrito a duas mãos, as do padre: “Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis de vossas casas. Tragam seus maridos!” Triste foi o item anunciando que o coro dos maiores de 60 anos seria suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.
Na sequência, tinha um pitaco do celebrante auxiliar, cuja informação era macabra: “O mês de novembro será finalizado com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia”. Agradecendo a colaboração dos comunitários, o mesmo padreco fez um último pedido: “Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados”. Para azar dele, ninguém achou os caixões. Como prova da complicação do português abrasileirado, os dois últimos avisos foram os mais emblemáticos e de maior complexidade: “Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas”; “Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus”. Resumindo a ópera, nem tudo que se vê é o que parece e nem tudo que parece é o que realmente é.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras