País de fake
No Brasil dos “patriotas”, opinião alheia é ponto de vista louco da realidade
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O Brasil é um país de contos de fada. É o verdadeiro paraíso na terra. Por aqui, tudo que se planta dá. O problema é plantar. Mero detalhe para quem vive em um país onde até a saudade é cheia de bossa nova e poesia. Por aqui, basta ter opinião para ser polêmico e, em alguns casos, louco varrido. Somos diferentes e não nos incomodamos. Pelo contrário. O prazer de alguns em criticar o “comunista” Luiz Inácio Lula da Silva não difere do orgasmo sentido pelos que endeusam o narrador golpista Jair Messias Bolsonaro e aplaudem os generais que, em lugar de lutar para defender a nação, lutaram para defender a manutenção de mais um ou dois contracheques.
É o Brasil que nem Freud tentou explicar. Na Europa, o futebol é entretenimento. Sem qualquer alusão ao que está localizado abaixo do cóccix, no Brasil é o analgésico do povo. Na terra em que o poder é uma obsessão, uns torcem pelo Flamengo, mas pedem a Deus pela morte do Botafogo, Palmeiras, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Fluminense e até do pobre do Vasco da Gama. Com quem irão jogar? A quem irão zoar? Pouco importa. Importante é ter opinião, mesmo que virem “caixinha de sugestões”, isto é, vivam da opinião dos outros.
Aliás, no Brasil de hoje basta dizer o que se pensa para arregimentar novos inimigos. Parto sempre do princípio de que opinião é igual a dinheiro. A diferença é que ninguém sai distribuindo dinheiro por aí. Aliás, se a opinião dos outros valesse a pena certamente muitos de nós não estaríamos mais aqui. Estou certo de que, a essa altura, eu já estaria no inferno. E o que fazer se, para os conservadores, a opinião alheia não passa de um ponto de vista louco sobre a realidade? Apenas torcer e lembrar que conservador é o homem que tem duas pernas perfeitamente boas e que nunca aprendeu a caminhar.
Torço para que o estágio de torpor seja passageiro. Por exemplo, como convencer um “patriota” raiz que os demais brasileiros podem defender a democracia com a mesma veemência que eles utilizam para apoiar a ditadura? Talvez dando a eles tareco, mariola, diplomas de CACs e praças e avenidas das grandes cidades livres para que, no alto do trio elétrico de Silas Malafaia, gritem a plenos pulmões contra o Estado Democrático de Direito. Talvez não seja o melhor caminho, pois, desse modo, acabarão acreditando que agem corretamente ao investirem primeiro em si, nos seus e, se sobrar tempo e vontade, nos outros.
Pode ser que assim um dia eles resolvam concordar com Max Nunes e passem a achar que o Brasil precisa explorar com urgência sua riqueza, porque a pobreza não aguenta mais ser explorada. Por hora, nos bastam as mentiras sérias e as encantadoras, aquelas que pelo menos não divide o povo, não polariza a política e faz rir a gregos, troianos, baianos, bolsonaristas e lulistas. O melhor é que, enquanto rimos, ninguém deseja a morte de Alexandre de Moraes, sonha em enjaular Mauro Cid, muito menos em destronar Lula. É o tempo necessário para que paremos de discutir com aqueles que não se rendem às verdades mais evidentes.
Não é o Brasil dos meus sonhos, mas fake news é o que nos move. No Brasil das mentirinhas, Bruna Surfistinha não surfa, mas dá à bessa. Zeca Pagodinho, o mestre do pagode, canta samba. Na contramão do Zeca, o Exaltasamba toca pagode. Entre nossas maiores curiosidades, a novela das 8 começa às 10, o milho verde é amarelo, o cantor Belo é feio, o coelho da Páscoa não bota ovo, o halls preto é branco, o quadro negro é verde e Silas Malafaia se acha o cara, mas não passa de um cão adestrado. O pior de tudo é imaginarmos o espírito de um ex-presidente vivo assustando o dia a dia da República e governando ao lado do espírito quase morto do outro.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras