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Dor sacra

No madeiro do silêncio, o sangrar sem testemunhas

Publicado

Autor/Imagem:
Renan Damázio - Francisco Filipino

Carrego a cruz nos ombros
Divido partes iguais
Cada um com um pedaço

Uma parte para os pais
Outra parte, os amigos
Fração ideal para o cônjuge
O mínimo existencial para os adversários

Tem dia que é alegria.
Há outros, que são queda.
Em todos, martelo o prego ao final.

Rezo, choro, em prantos fico.
Tanta falta faz um amigo
Do peito, um coração a sangrar.

Junto da cruz, espinhos perfuram.
A visão turva e os caminhos incertos.
Há vielas inseguras.
O calvário parece um grande obstáculo.

Frequentemente procuro escutar a voz.
Há muito silêncio aqui.
O frio me consome.
Suas silhuetas somem.

Onde estão vocês, que agora me negam?
Escorre o líquido da ferida.
Cor vibrante, nos meus pés, como vinho.
Neste sacrifício, sofro sozinho.

As vozes se calam no templo vazio,
Ecoam memórias num canto tardio,
O peso do mundo desaba em meu dorso,
E o tempo me arrasta, cruel, no seu curso.

Se tudo me falta, ainda me resta o pó,
Testemunha muda do que fui e estou só,
Mas mesmo na queda, no escuro e sem dó,
Há algo que pulsa e não se desfaz em nó.

……………

Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.

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