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Pronta entrega

No meu novo comércio, negocio inutilidades para consumidores úteis

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Sem vocação alguma para o comércio varejista, desisti de comprar e vender produtos ou títulos incluídos na lista oficial de boicotes dos bolsonaristas. Fechei a bodega antes que pudessem me taxar de fanatismo comunístico e decidi cair na clandestinidade. Agora, atendo somente em domicílio, com hora marcada e sempre mantendo a ordem de chamada da clientela. Atendendo ordens superiores, parei de comercializar sandálias Havaianas, picanha gaúcha, chocolate Bis e Mega-Senas previamente preenchidas por Fernando Haddad. São mercadorias inúteis para consumidores úteis só para os escolhidos.

Para evitar contratempos, tirei do catálogo itinerante toda a programação da Globo Lixo, evito falar das novas donas do SBT, do Datena e do Globo de Ouro e, atendendo a pedidos maquiados de ódio, evito declamar em público poemas de autoria de celebridades como Wagner Moura, Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Caetano Veloso, William Bonner, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cármen Lúcia. Consigo reservar filmes como Ainda Estou AquiO Agente Secreto, Todos os Homens do Presidente e A Volta dos Que não Foram, mas só no paralelo ou, conforme os clientes especiais, no câmbio negro.

Por minha conta e risco, resolvi dolarizar todos os enlatados, com destaque para as conservas de ervilha, de carne de gado, de toucinho de porco e de mito vaporizado, essa a preferida da maioria dos sambistas de Niterói e adjacências. Ganho bem menos do que na época em que negociava com o negócio dos outros. No entanto, sou obrigado a confessar que faturo o equivalente às bugigangas que oferto a meu público convergente à direita, mas democraticamente divergente à esquerda.

Consumidores desantenados do mundo progressista, absorvidos pelas cantigas de grilo e vampirizados pelas histórias de mitos e duendes, minha freguesia é positivista, avessa a vacinas e, não sei se me entendem, hermeticamente acostumada a comprar tudo que os mestres determinam. Não tenho do que reclamar. Além de artefatos importados da Venezuela Setentrional e das peças artesanais feitas com chifres de búfalos paraguaios, disponho de itens inservíveis para clientes mais elitizados, mas de sucesso garantido entre os fregueses indicados pelo Recruta Zero.

De minha extensa lista de artigos para negócio imediato, alguns de fabricação própria, os mais procurados pelas boas pessoas do ramo do topa tudo que lhes oferecem são carburadores para disco voador de fanáticos, feno artificial para gado ainda na fase despolitizada, sulfato de peido, pó de bosta, pochetes do tipo barriga de pai, frangos tatuados, ralador de pés direito, pegador de pintos no escuro, lustrador de chifres em formação, camisinhas para elefantes, ferro de soldar toba com excesso de uso, frigideiras para omeletes de ovos bambos e bidês com jatos quente e frio simultâneos.

Mais difíceis, mas com boa representatividade junto aos adquirentes vinculados ao ídolo da Papudinha, também tenho disponível para pronta entrega spray de pum de extraterrestre, maçaneta para portas de carrinhos de rolimã, camisinhas laceadas pelo menino Kid Bengala, virabrequins para jet ski do asfalto, amaciantes exclusivos para as esponjas do Bob e, como lançamento, um pacote de consultas pré-agendadas com o doutor Sete Dedos, o afamado muso da urologia nacional. Por enquanto, faltam na prateleira de minha lojinha virtual somente abadás da Acadêmicos de Niterói, amuletos contra pragas de sapo barbudo e cópias dos espartilhos usados nas noites palacianas pela dona Janja.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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