Teses e reflexão
‘No show da vida, só cometo erros quando ninguém está olhando’
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Mais do que um jogo, o show da vida é uma caixinha de surpresas. Por isso, procuro me adaptar às normas e não fujo da raia nem que um dia me falte tu e a tota-tola. Não me acostumo com o tal do politicamente correto, mas, se é para felicidade geral da nação, digo ao povo que aceito. Sob pressão, mas aceito. A chatice teve início quando a criatividade humana deu lugar à necessidade de os antagonistas protestarem por coisas banais e que nem sempre lhes dizem respeito. Sou fã incondicional da inventividade alheia. Como na vida quase tudo se copia, uso o que recebo de memes e de curiosidades para recriar situações aparentemente engraçadas, mas definitivamente sérias e passíveis de muita reflexão.
Por exemplo, não aceito a informação de que Trump invadiu a Venezuela para combater cartéis de drogas. O nome disso é ganância. Também discordo da tese de que o amor torna as pessoas mais bonitas. Chamo isso de álcool. Torcer contra o Flamengo é sinônimo de inveja. Como concordar quando alguém me diz que o amor faz botar uma nova pessoa dentro de nós? Para mim, isso é gravidez. Pior é ouvir que o amor nos pega de surpresa e nos deixa totalmente sem ar. Embora não seja médico, denomino esse fenômeno de asma. Pelo amor de Deus, nada contra o amor. Também não sou a favor de eventuais xingamentos pejorativos e desnecessários dirigidos aos semelhantes. O que reclamo é o patrulhamento de desconhecidos sobre meus conhecidos erros.
A esses, lembro sempre que todo homem (e mulher) comete erros. Meu truque é cometê-los quando ninguém está olhando. Dia desses fui repreendido publicamente em um consultório médico por estar folheando uma revista de mulher pelada. “Pussesso” da vida, respondi ao interlocutor de meia idade que leio a Playboy pela mesma razão que manuseio a National Geographic: gosto de ver fotografias de lugares que jamais visitarei. Não convenci. Azar. Ouvindo minha resposta, o cardiologista que fui visitar se apressou em me chamar. A primeira pergunta foi se eu bebia. Respondi que tomaria um gole somente para acompanhá-lo.
Acho que ele não entendeu, pois, após uma longa e seca espera, o doutor nada me serviu. Depois desse preâmbulo etílico, o moço do jaleco branco quis saber sobre minha pressão arterial. Disse que sai ano e entra ano, é 12 por nove e não passa disso. Ou seja, não sobe nunca. Satisfeito, doutor Cipó (este é o nome do indigitado) perguntou de chofre: E seu sexo? Igualzinho a pressão, respondi meio entre os dentes. Não sobe nunca. Que coisa feia ficar espionando a gente sem autorização judicial. Não volto mais lá, principalmente porque percebi que o jaleco do moço tinha mais botões do que jaqueta de general.
Felizmente moro hoje em uma cidade grande. Vivesse ainda no pequeno bairro carioca onde nasci, estaria perdido. A essa altura, toda a vizinhança saberia da paumolescência, resultado trágico de minha consulta. Se querem saber, o bairro era minúsculo, daqueles que Trump tomaria com um espirro. Tão apertado que o buzão entrava de costas. O acanhamento do subúrbio gerou denominações pouco republicanas para alguns de seus principais pontos turísticos. Para se ter ideia do tamanho do lugar, o riacho que o cortava era apelidado de calcinha, pois nele só cabia uma perereca. O tamanho do meu problema assustou alguns amigos mais chegados.
Um deles – o mais preocupado – sugeriu que eu procurasse um acupunturista. Tentei e logo desisti. Um editorial da revista Globo Rural me informou a tempo que, se acupuntura adiantasse alguma coisa, o porco-espinho viveria para sempre. Por fim, recorri à bebida. Dizem que a “mardita” resolve qualquer tipo de sufoco. No meu caso ainda não resolveu. Como sou brasileiro, não desisto nunca. Acho que transformei meu embaraço em um bicho de sete cabeças. Na verdade, não acho. Tenho certeza. Parei de me preocupar com eventuais desculpas ao saber que a quase imbrochabilidade tem seu lado bom. Na rede do Vaticano, o papa informou que as traições dos homens com mais de 60 anos deixam de ser pecado e passam a ser pequenos milagres. Estou salvo. E Donald Trump?
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras