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Nossa percepção

Nomear não é exagerar

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Durante muito tempo, nós ouvimos que víamos problema onde não existia.

Que éramos sensíveis demais, críticas demais, intensas demais. E por um tempo quase sempre longo demais nós acreditamos. Silenciamos o incômodo, minimizamos a dor, racionalizamos o que machucava. Aprendemos a desconfiar da própria percepção.

Mas existe um momento e ele quase sempre vem depois do cansaço extremo em que algo muda. Não é raiva, não é vitimização, não é desejo de conflito. É clareza. É quando percebemos que talvez não estivéssemos inventando nada. Talvez estivéssemos, pela primeira vez, nomeando.

Nomear é um gesto poderoso e perigoso. Michel Foucault já mostrava que dar nome às coisas nunca é neutro: quem nomeia rompe com regimes de silêncio. Nomear é tirar da sombra aquilo que foi mantido como normal, aceitável, invisível. Por isso incomoda tanto. Por isso tantas mulheres são acusadas de exagero quando apenas descrevem o que vivem.

Nós fomos educadas para duvidar da nossa experiência. A acreditar mais na versão confortável dos outros do que no desconforto que sentíamos no corpo. Judith Butler lembra que a dor só se torna politicamente relevante quando é reconhecida como real. Antes disso, ela é tratada como falha individual, fragilidade emocional, drama.

Quando diziam que “não era nada”, não estavam falando da situação estavam nos ensinando a calar.

Quando diziam que “era coisa da nossa cabeça”, estavam protegendo estruturas inteiras de responsabilidade.

Nomear o que dói não cria o problema. Apenas o revela.

E revelar dói mais no começo. Porque obriga a rever relações, histórias, escolhas, versões de nós mesmas que sobreviveram se adaptando. Byung-Chul Han diria que vivemos numa cultura que evita o negativo a qualquer custo. Nomear a dor quebra a lógica da positividade forçada. Por isso parece desconfortável, quase inadequado.

Mas há algo profundamente libertador nisso.

Quando nós finalmente damos nome ao que sempre doeu, o sofrimento deixa de ser confuso. Ele ganha contorno. E o que tem contorno pode ser cuidado, enfrentado, transformado. O que não é nomeado nos governa em silêncio. O que é nomeado passa a ter limite.

Talvez nós não estejamos vendo problema onde não há.

Talvez estejamos, enfim, vendo com nitidez.

E isso não é exagero.

É maturidade dolorosa.

É consciência tardia.

É o início de uma fidelidade rara: a fidelidade à própria experiência.

Nomear não nos torna difíceis.

Nos torna honestas.

E depois que aprendemos a nomear, já não conseguimos voltar a fingir que não sentimos.

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