Falar
Normalizar o Silêncio Depois do Desrespeito
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Nós precisamos normalizar nunca mais falar com certas pessoas depois que elas nos desrespeitam. Não como vingança, não como castigo, mas como um gesto consciente de preservação. Existe um mito perigoso de que maturidade é sempre conversar, explicar, insistir. Nem sempre é. Às vezes, maturidade é encerrar.
Durante muito tempo nos ensinaram que dar segundas chances é virtude absoluta. Que cortar laços é exagero. Que silêncio é imaturidade. Mas ninguém nos ensinou que continuar acessível a quem nos feriu é uma forma lenta de violência contra nós mesmas. Como lembra Audre Lorde, não somos obrigadas a usar nossa energia para educar quem escolhe nos ferir.
O desrespeito raramente é um acidente. Ele vem precedido de sinais, de pequenas invasões, de ironias disfarçadas, de limites testados. Quando alguém cruza essa linha, não é falta de comunicação é escolha. E escolhas têm consequências. Simone de Beauvoir já nos alertava que tolerar a injustiça é uma maneira de legitimá-la.
Nós também precisamos dizer: explicar demais cansa. Justificar o óbvio adoece. Nem todo mundo merece acesso contínuo à nossa vida, ao nosso afeto, às nossas narrativas. Zygmunt Bauman falava da banalização dos vínculos; hoje, precisamos falar da banalização do desrespeito, travestido de sinceridade, humor ou “jeito de ser”.
O silêncio, nesses casos, não é ausência de resposta. É resposta clara. É limite. É linguagem política. Judith Butler nos ensina que existir com dignidade passa por decidir quem pode nos atravessar e quem não pode mais. Continuar falando com quem nos diminui não é empatia é autoabandono.
Nós não devemos explicações infinitas a quem nos feriu conscientemente. Não devemos presença contínua a quem não soube nos tratar com cuidado. Encerrar ciclos não exige discursos longos, apenas coerência entre o que sentimos e o que aceitamos.
Normalizar o afastamento é também ensinar que ações têm peso. Que palavras deixam marcas. Que relações exigem responsabilidade afetiva. bell hooks já dizia: amor sem ética não é amor, é dominação.
Se este texto chegar a alguém que se sente culpada por ter se afastado, por ter silenciado, por não ter respondido: nós queremos dizer que está tudo bem. Preservar-se não é frieza. É maturidade emocional. É aprender, finalmente, a escolher a si mesma.
Nem todo fim precisa de conversa. Alguns precisam apenas de coragem.