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Sem retóricas

Nova ordem da língua portuguesa é printar a selfie e tuitar a ‘sofrência’

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Antigo nesse mundo de meu Deus, nem sempre concordo com os neologismos criados pelos mais novos ou pelos politicamente corretos para denominar coisas de tempos passados. Por exemplo, o povo ideologicamente à direita defende a fulanização das mortes em favelas. Para os conservadores, elas são apenas uma triste consequência para os que nasceram pobres. Para esses, o mínimo que posso dizer é que, sendo assim, por que não posso naturalizar linguisticamente a introdução do meu pescocinho de frango em vossas gaiolas fétidas?

Mesmo sem saber o que era o tal neologismo, era assim que eu respondia àqueles que não me aceitavam como igual. Hoje, embora não assumam, muitos deles preferem sonhar com um espanador de pó no girassol. Coisas de quem diz que pimenta só é refresco no anel alheio. São os mesmos que nunca adentraram um dos milhares recintos de luzes vermelhas espalhados pelo país e, por isso, apelidaram as velhas e prazerosas casas de saliência de locais de comida rápida. Os mais esquisitos só se referem a elas (as casas) como fast food.

Se estão querendo mudar as regras com o jogo sendo jogado, espartanamente sugiro que avaliem melhor o que dizem, pois, como lembra o velho ditado popular, quem com ferro fere não sabe como dói. Por essa e outras razões é que não me canso de dizer que o mundo é redondo, mas está ficando chato. Parafraseando o frasista Nelson Rodrigues, no Brasil de hoje há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem ser ter ousado um raciocínio próprio. Optam pelo caminho do internetês, da hashtag e da dropagem.

Como sempre soube que os últimos serão desclassificados, não me vejo como ranzinza, mas questiono a turma que vive para printar a selfie e tuitar a sofrência, mas esquece que o melhor do admiramento é o cruzo entre seres sexualmente antagônicos, ou seja, uma gata e um ogro. Já que depois da tempestade vem a gripe, o melhor caminho para desenvelhecer é desesquentar, deletar a sofrência e aderir à nova ordem da língua portuguesa.

Sabidamente os neologismos expressam novas realidades para a turma que adora Coca-Cola porque nunca experimentou Pepsi. Seriam esses os personagens do tipo pau que nasce torto acaba fazendo xixi no chão? Pode ser! Embora prefira manter as palavras exatamente como foram criadas, não escondo que aprecio o sextou e que de vez em sempre sou praticante do deboísmo, isto é, ficar de boa, ficar em paz, sem estresses e sem preocupações. Portanto, se você não é de boa, por favor não tente desdeboar meu deboísmo.

Antesmente, por conta da tal eloquência, falar errado era uma arte. Nada a ver com a dislalia (distúrbio que acomete a fala). Papalizando a comunicação, vale registrar que o mais importante é o entendimento do que se ouve ou lê. Não adianta tentar buscar a origem das novas palavras, tampouco razões para sua criação. É ouvir, gravar e, sem medo de estar tentando persuadir, convencer ou instruir, repeti-las à exaustão. Mas o que é mesmo printar, blogar, online, streamar, namorido, selfie, clicar, tuitar, linkar, customizar, metrossexual, bullying, hastag, home office, deletar, dropar, geolocalização, admiramento e etc? É a tal da língua viva e em constante evolução. Se a minha está evoluindo eu não sei, mas garanto que ela está vivinha da Silva. E não é retórica.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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