É Sobre Petróleo
Nunca Foi Sobre Maduro
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Nós precisamos colocar isso na mente, sem rodeios e sem ingenuidade: os Estados Unidos atacariam a Venezuela com ou sem Maduro. O nome do presidente é um detalhe circunstancial, o objetivo estrutural sempre foi o mesmo. Petróleo. Território. Controle.
Personalizar o conflito é uma estratégia antiga. Ao transformar a disputa em um embate moral “ditador versus democracia”, o imperialismo se absolve antes mesmo de agir. Como já nos ensinou Edward Said, o Ocidente constrói narrativas que justificam suas intervenções apresentando o outro como ameaça, atraso ou barbárie. A Venezuela ocupa exatamente esse lugar no discurso hegemônico.
Se o presidente venezuelano fosse alguém disposto a abrir as portas, privatizar recursos estratégicos e alinhar-se integralmente aos interesses norte-americanos, não haveria sanções, nem bloqueios, nem discursos humanitários. Não haveria comoção internacional. Haveria aplausos. A história latino-americana está repleta desses exemplos.
Nós sabemos disso porque já vimos acontecer. Vimos no Chile, vimos no Brasil, vimos na Bolívia, vimos na Argentina. Sempre que um governo ameaça, ainda que minimamente, a soberania econômica sobre seus próprios recursos, ele passa a ser tratado como problema global. O petróleo venezuelano não é apenas riqueza, é poder geopolítico. E poder, quando não está nas mãos certas, precisa ser disciplinado.
Não é coincidência que países ricos em recursos naturais e pobres em alianças submissas sejam constantemente enquadrados como “instáveis”. Naomi Klein chama isso de capitalismo do desastre: primeiro cria-se o caos, depois oferece-se a solução sempre privatizada, sempre estrangeira, sempre lucrativa para poucos.
Nós também precisamos dizer o que muitos evitam: se figuras como Milei ou Bolsonaro estivessem no comando da Venezuela, a relação seria outra. Não porque seriam mais democráticos, mas porque aceitariam negociar a soberania como se fosse mercadoria. Não haveria ataque, haveria contrato. Não haveria guerra, haveria concessão.
O problema nunca foi autoritarismo. Os Estados Unidos convivem muito bem com regimes autoritários quando eles servem aos seus interesses. O problema é quando um país insiste em decidir sobre si mesmo. Como aponta Noam Chomsky, a política externa norte-americana não pune ditaduras, pune desobediências.
Enquanto isso, quem paga o preço somos nós. Os povos. As mulheres. As crianças. As vidas comuns esmagadas entre sanções econômicas, inflação, escassez e discursos vazios sobre liberdade. Achille Mbembe já nomeou isso: necropolítica, o poder de decidir quem pode viver e quem pode morrer, em nome do mercado.
Nós não estamos defendendo governos. Estamos denunciando estruturas. Não se trata de amar Maduro ou odiá-lo. Trata-se de entender que a América Latina segue sendo tratada como quintal estratégico, onde a autodeterminação é tolerada apenas enquanto não ameaça o lucro global.
E talvez o mais violento seja isso: tentarem nos convencer de que tudo isso é sobre democracia. Não é. Nunca foi.
Nós já aprendemos a ler o mundo para além das manchetes. E quem aprende a ler, não volta a acreditar em contos imperiais.