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Outros tempos

Nunca mais brinquei de sirene

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Eu não sei se você sabe, mas namorar policial tem um T de teimosia e um M de marra que desperta lá no fundo do cabra macho que eu não sei de onde vem.

Fui criada pelo meu vô, filho de cangaceiro, pernambucano brabo, que tudo dizia:

— Age que nem macho!

Eu, quatro primas e dez machinhos, tudo no mesmo quintal. Imagina?

Sou da época em que não existia ECA, muito menos Conselho Tutelar. Nossa correção era na base da vara!

Agora tu imagina cinco meninas crescendo com os machos. A porrada comia, claro! Mas não tinha essa de chorar, não. Era aprender a se defender e a devolver, sem ser princesinha.

Cresci nesse mundo achando que macho mesmo eram os policiais. Aqueles durões, com cara de matadores. Então, na minha reta, só passa polícia.

Até que, já na fase em que não se andava mais grudada nos primos, conheci um gatinho da Civil. Eu achava o máximo! Cara grandão, forte, cheio de marra.

Comecei a pensar que mulher de polícia tinha que manter a mesma marra. Tudo eu brigava, falava alto e queria tirar satisfação.

Não tenho aparência de mocinha. Sou bruta fisicamente, grande e tenho um olhar muito direto e intuitivo. (Isso eu aprendi com um ex-advogato (sim, de gato mesmo), que só me ensinou merda. Mas isso é papo para outro texto.)

Então, eu agia como ele.

Um belo dia, marcamos na Avenida Brasil, onde ele me pegaria para irmos à casa dele, pois morava em um município vizinho. Coisinha de uma hora e meia de viagem.

Ao pegar uma entrada para a localidade onde morava, ele jogou um objeto no chão, próximo ao meu pé, e aumentou o som.

Eu, até então inocente, soltei o cinto de segurança e me abaixei para pegar.

Nesse momento, ele segurou minha nuca, forçando minha cabeça para dentro das minhas pernas, e falou:

— Fica assim e quieta!

Tentei levantar, mas não consegui.

Senti uma curva forte, o arranque do carro ao passar por baixo do viaduto.

Mais à frente, ele me soltou e eu, bem quente ainda, perguntei se ele estava maluco.

Ele seguiu até a casa em silêncio. Eu falando pelos cotovelos e ele estático, olhando para a frente. Quando chegamos, ele pediu para eu descer e falou assim:

— Só não grita!

Desci, bati a porta e, quando fui para trás do carro… Putz.

O vidro estava estilhaçado. O carro cheio de buracos de tiro.

Eu não tive reação.

Demorei para assimilar. Sentei, chorei, mas tomei pavor daquele lugar.

Assim como nunca mais consegui andar com ele nos carros que comprava. Só no meu. Olha… a fascinação pelo uniforme preto acabou ali.

Ainda ficamos juntos por mais um tempo, mas hoje eu nem brinco mais de sirene!

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