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Fé digital

O algoritmo não conhece sua mãe

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma ingenuidade bastante contemporânea: acreditar que aquilo que aparece na tela corresponde àquilo que existe na vida.

É uma espécie de fé digital.

O algoritmo nos apresenta pessoas felizes, bem-sucedidas, bonitas, disciplinadas, organizadas, produtivas e, aparentemente, incapazes de esquecer a roupa na máquina de lavar.

É um universo impressionante.

Nele, ninguém acorda atrasado.

Ninguém chora no banheiro.

Ninguém tem medo.

Ninguém perde o ônibus.

Ninguém come pão com manteiga às dez da noite porque não teve tempo de cozinhar.

A vida virtual é uma coleção cuidadosamente editada de exceções.

A vida real continua sendo feita de rotina.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja imaginar que conhecemos pessoas porque acompanhamos seus perfis.

Não conhecemos.

O algoritmo sabe quais músicas você ouve.

Sabe quanto tempo permanece olhando uma fotografia.

Sabe do que você gosta.

Mas não conhece sua mãe.

Não sabe quem segurou sua mão quando tudo parecia perdido.

Não sabe quem morreu.

Quem nasceu.

Quem ficou.

Quem partiu.

Não conhece o cheiro da casa da sua avó.

Não sabe das conversas que mudaram sua vida.

Não sabe do medo escondido atrás da coragem.

Muito menos entende por que certas lembranças continuam doendo depois de tantos anos.

A tecnologia acumulou uma quantidade extraordinária de dados.

Mas informação nunca foi sinônimo de conhecimento.

Muito menos de sabedoria.

Talvez seja por isso que continuamos tão sozinhos em meio a tanta conexão.

Falamos com centenas de pessoas.

Conversamos profundamente com tão poucas.

Porque intimidade nunca dependeu de Wi-Fi.

Depende de tempo.

De escuta.

De presença.

Coisas que, curiosamente, ainda não cabem em nenhuma atualização de sistema.

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