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Revisitando 2021

O amor nos tempos pandêmicos

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

*Texto experimental sem qualquer pontuação gráfica: proponho leitura oral em voz alta na busca das pausas, dos pontos, vírgulas, parágrafos… da música textual:

Anterior ao sim à toca os parceiros se despiram com um breu de pura madrugada e um lance de dados ambíguo e mudo apenas silêncios e um menos de esperança já acesa a chama da manhã foram se distanciando no mesmo espaço breve e agudo de um gesto só, perceptível se susto “estamos quites” disseram eles às suas almas embrulhadas em penas de pavão e voaram alto e invisíveis para as respectivas casas amar às vezes é pisar em pássaros amanhecidos lidamos na cotidemia* com pequenas mortes por mim só espero a redenção do amor aquela que devolva à terra as folhas que reinventam das cinzas o húmus o corpo justo que há de vir a seiva e a luz as roupas quarando sob o sol… a descida ao inferno não dura uma vida inteira só a metade de nós se mistura com as sombras a outra metade permanece ali o grão fértil que emergirá nova vida vejo a face escura da terra longe/perto planeta imenso e deserto procuro um coração pequeno um animal perfeito e suave um fruto repousado um sopro romã delicado um olhar ensanguentado quem ignora o sulco entre a sombra e a luz? Lodo algas e nada, peixes ao sol apaga-se um planeta acende-se uma árvore uma montanha outra estrela o isolamento abriu-me os olhos e a alma deixo aqui minhas fotografias e alguns rabiscos levo comigo o meu baú de circunstâncias minha náusea meu circo de espantos a longa noite o vírus e a insônia deixo também o meu detector de mágoas meu mar predileto de margens abstratas minha ideia de “novo normal” velhos vícios gemendo ladainhas para o farto pasto de deus deixo feito cobra a casca do impossível perfis carcaças esqueletos e enjoos deixo tudo e algo mais do além mim pois me acompanho me acho e me perco quem se afasta é apenas o que pensaram de mim o outro o semelhante o porquê o talvez relato de tempos na tela líquida de cristal purgatório nuclear algoritmos e as tormentas virtuais solidão de bicho/gente e sigo homem frágil inacabado espanto sem oxigênio sufocado na noite veloz dos tempos
(só o amor nos salvará?) mas quem sabe por onde andará o amor? textos indecifráveis de desejos paixões rabiscos de sonhos fracassos e algumas esperanças.

……………………

*Cotidemia: palavra que inventei em 2021 em plena pandemia: cotidiano+pandemia.

Gilberto Motta é escritor, jornalista e “experimentador” de novas linguagens e provocações literárias. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú-SC.

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