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De Brasília à praia de Guaiú

O badejo de 15 quilos

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dagoberto, logo após se aposentar de uma repartição pública em Brasília, tratou de juntar os trapos e se mandar para a bela praia de Guaiú, município de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia. Quem amou foi a esposa, dona Solange, que sempre sonhara acordar com os pés na areia. Entretanto, o sujeito sentia falta das amizades deixadas na capital, principalmente dos antigos parceiros de pescaria, o Zé Rosquinha e o Tonho Panqueca, ambos pescadores de rios e lagos, por coisa não sabida, não eram chegados ao mar.

Depois dos inúmeros convites, todos declinados pelos amigos, Dagoberto teve uma ideia, pelo menos aos seus olhos, infalível. E ele, enquanto degustava café com bolinhos de chuva com a mulher num aprazível final de tarde, lhe contou seu plano.

— Solange, meu amor, preciso da sua ajuda.

— Pra quê?

— Pra convencer o Zé Rosquinha e o Tonho Panqueca a nos fazer uma visita.

— Hum! Acho difícil, meu bem, você já chamou aqueles dois tantas vezes, mas eles sempre inventam uma desculpa.

— Pois amanhã cedinho vamos até a casa do Laurindo.

— Pra quê?

— Amanhã você vai saber.

Mais do que curiosa, Solange fazia questão de não parecer uma e, então, foi espairecer entre as roseiras e as hortênsias no jardim. Difícil mesmo foi quando chegou a noite de dormir. Quem disse que a mulher conseguia pegar no sono? Precisou recorrer a mais de um litro de chá de camomila, o que quase a fez retornar aos tempos de infância. Por sorte, na manhã seguinte, conseguiu chegar a tempo no vaso. O xixi saiu forte.

Bem antes da hora do almoço, lá estavam o Dagoberto e a amada proseando com o Laurindo, o mais afamado pescador da região. De tão bom, peixe com menos de dois quilos era isca para o sujeito, cuja modéstia nem se atrevia a pairar à sua volta.

— Laurindo, meu querido, tu por acaso tem algum peixe graúdo pra me vender?

— Serve esse badejo?

— Caramba! Que peixão!

— E esse é dos pequenos, não chega aos 15 quilos.

— E quanto te devo?

— Pois é um presente pela visita do casal mais gente fina de Guaiú.

— Tem certeza, Laurindo?

— Certíssimo.

Dagoberto, olho no peixe, não percebeu a troca sorrisos entre Solange e o pescador. Vida que segue, ainda mais porque a história é sobre o que se deu na meia hora seguinte.

Mal se despediram do anfitrião, Dagoberto e Solange se dirigiram rapidamente para o lar, doce lar. Ele pegou a tralha de pescaria e caminhou apressadamente para a praia. Colocou o badejo no anzol e pediu para a esposa tirar fotografias de todos os ângulos possíveis.

— Dagoberto, você pode me explicar pra que tudo isso?

— Vou mandar as fotos desse bitelo pro Rosquinha e pro Panqueca. Agora quero ver se eles não vêm.

Dito e feito, ainda mais porque o mentiroso afirmar que aquele peixe era o menor do cardume! Foi o bastante para que os antigos parceiros do Dagoberto visualizar as fotografias para juntarem a coragem guardada nas gavetas e pegarem a estrada rumo à praia de Guaiú. Dois dias de viagem, várias discussões pelo caminho, eis que finalmente estacionaram em frente à simples, mas agradabilíssima residência do amigo.

Dagoberto adiou o máximo possível, até que não teve mais jeito. Zé Rosquinha e Tonho Panqueca insistiram que queriam começar a pescaria naquela manhã ensolarada de janeiro. Nada mais de procrastinação!

Os três amigos, devidamente acomodados em cadeiras dobráveis em frente à praia, aguardaram pacientemente as varas de pescar darem sinais de que havia peixe no anzol. Nada de pampos ou sargos, quiçá um belo badejo. Nem mesmo um papa-terra ou uma corvina. Tonho Panqueca, o mais exaltado, disparou:

— Dagoberto, tu não falou que aqui tinha peixe?

— Deve ser o sol, Panqueca. Ih, esses peixes… Cada um mais ladino que o outro.

Depois de passarem a manhã inteirinha dando banho nas iscas, a fome bateu forte. Sem peixes e com o moral rastejando, lá foram os três amigos serem salvos pela moqueca de peixe com camarão feita pela Solange. Ela, já prevendo o desastre da pescaria, havia providenciado os ingredientes na feira, que ficava ao lado da casa do Laurindo. Demorou além da conta, é verdade, voltou com um sorriso maior do que a cara e com ânimo redobrado.

— Solange, mas que delícia! A melhor moqueca que já comi!

— Ah, obrigada, Rosquinha.

— É verdade. Tá boa pra dedéu!

— Ah, gentileza a sua, Panqueca.

Buchos cheios, os quatro foram para a enorme varanda, de onde poderiam apreciar a paisagem paradisíaca. Abriram algumas garrafas de cerveja para relaxar, os brios voltaram, mas a conversa desandou.

— Dagoberto, você pegou aquele peixe aqui mesmo em frente?

— Bem, Panqueca, na verdade, acho que foi a alguns quilômetros daqui.

— Ah, eu sabia! Então, amanhã a gente vai nesse lugar.

Solange, deitada na rede, não aguentou e soltou aquela gargalhada, o que despertou a curiosidade dos convidados. Rosquinha, o mais contido, sorriu para acompanhar a esposa do Dagoberto. Todavia, Panqueca, cabreiro que era, achou que aquela risada tinha algo de estranho. E nem foi preciso perguntar, pois a mulher deu com a língua nos dentes.

— Aquele badejo foi presente do Laurindo, um pescador nativo.

Não houve brigas nem desavenças sérias a partir de então. Tirando o fato de que Dagoberto, a partir daquele dia, passou a ser chamado de Pinóquio. Os três amigos, em vez de pescaria, curtiram a praia até a hora do almoço, sempre preparado com esmero pelas mãos habilidosas da Solange, que fazia questão de ir atrás dos ingredientes todas as manhãs. Se ela demorava além da conta, demorava mesmo e voltava com aquele sorriso que provocava as sensuais covinhas nas bochechas. Ah, mas essa é uma outra história.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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