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Suspiro rosa

O baleiro de vidro

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Rodrigo entrou no boteco com o intuito de tomar refrigerante e saborear um salgado qualquer. Se tivesse coxinha, não muito gordurosa, arriscaria. O fígado não andava muito bem desde que pisara na casa dos 50.

Um sujeito grande, bigode respeitável, cabelos penteados para trás, sorriu aquele sorriso amigável dos donos de botequim.

— Tem coxinha, amigo?

— Tem, mas eu não arriscaria. O quibe acabou de sair.

O cliente apreciou a sinceridade do comerciante, porém correu os olhos pela vitrine. Lá estava uma solitária coxinha, generosa camada de óleo lhe lustrava a pele.

— É, chefe, você me convenceu.

Enquanto degustava o quibe e o refrigerante, Rodrigo percebeu dois garotos, talvez sete, oito anos, entrarem. As crianças se dirigiram à ponta do balcão, onde se encontrava um vistoso baleiro giratório. De vidro, igual a tantos outros que haviam encantado o menino que Rodrigo fora um dia.

— Olá, Maurício! Olá, Joaquim! O que vão querer hoje?

— Seu Lúcio, quero duas balinhas dessas daí de cima.

— Esta?

— Não, a outra.

— Sabia que são as minhas favoritas, Joaquim?

— Sério?

— Sério. E tu vai querer qual, Maurício?

— Hum… Tô na dúvida, seu Lúcio.

Pois dúvida era o que Rodrigo sentia em frente aos baleiros da sua infância. Também, como decidir quando se tem o mundo diante dos olhos?

— Bom dia, Rodrigo. Como está a sua avó?

— Bom dia, seu Pedro. Vovó tá bem.

— E o que você vai levar hoje?

— Num sei.

— Que tal esse pirulito do Zorro? Você gosta do Zorro?

— Gosto.

— Então, vai querer quantos?

— Num sei. Acho que vou querer esse aqui.

— Um suspiro? É o meu favorito. Pode ser esse amarelo?

— Hum… Gosto mais do rosa.

— Eu também.

Rodrigo, distraído em devaneios, não percebeu quando os meninos saíram. O que o Maurício teria levado? Alegria, na certa.

— Chefe, quanto te devo?

— Doze reais.

— Você tem suspiro?

— Tem, mas acabou.

Rodrigo abriu a carteira, retirou uma nota graúda e a entregou ao dono do bar. Recebeu o troco e se despediu. Voltaria outro dia quando, quem sabe, finalmente poderia relembrar o sabor dos seus tempos de menino.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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