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Pedro e Ana

O Café Esquecido

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Pedro e Ana se conheceram na faculdade, numa daquelas aulas chatas de literatura brasileira que ninguém queria frequentar. Ele chegava atrasado, com o cabelo bagunçado e um sorriso fácil que desarmava qualquer professor. Ela, sempre na primeira fileira, anotando tudo com uma caneta vermelha que parecia sangrar nas páginas. Um dia, ele sentou ao lado dela por falta de lugar e perguntou, baixinho: “Essa parte do Machado é tão complicada assim ou sou eu que sou burro?” Ela riu, respondeu que era os dois, e ali começou tudo.

Viraram inseparáveis. Amigos de verdade, daqueles que dividem segredos às três da manhã, que viajam de ônibus lotado para um fim de semana na praia, que brigam por bobagens e fazem as pazes com um abraço. Pedro contava sobre as namoradas que não davam certo, e Ana ouvia, com um aperto no peito que ela nunca admitia. Ana falava dos caras que a decepcionavam, e Pedro sentia uma raiva quieta, disfarçada de piada: “Esse aí não merece nem o seu tempo, Ana.” Eles se completavam. Sabiam as manias um do outro: ele odiava cebola, ela não vivia sem café forte. Iam sempre ao mesmo café no centro da cidade, uma portinha velha com mesas de madeira rachada, onde o dono já sabia o pedido de cor: um expresso para ela, um cappuccino com canela para ele.

Mas ninguém dizia o óbvio. Pedro achava que Ana o via só como o amigo confiável, o irmão que a vida deu. Ana temia que, se confessasse o que sentia – aquele calor que subia quando ele ria perto demais –, tudo desabaria. Melhor a amizade segura do que o risco de perder tudo. Então, fingiam. Namoravam outros, contavam as histórias, riam juntos das trapalhadas alheias. E o amor ficava ali, escondido nos olhares demorados, nas mensagens de boa noite que chegavam todo dia.

Até que veio a bobagem. Uma discussão idiota, como tantas que já tinham tido e superado. Era uma sexta-feira chuvosa. Eles estavam no café de sempre, planejando uma viagem com mais amigos. Ana sugeriu um lugar na serra, Pedro queria praia. “Sempre a mesma coisa, Pedro, você nunca abre mão”, disse ela, meio brincando, meio irritada porque o dia tinha sido ruim no trabalho. Ele rebateu: “E você sempre quer decidir tudo, como se soubesse mais.” A conversa subiu o tom. Ele disse que ela era teimosa demais. Ela retrucou que ele era imaturo. No fim, Pedro jogou dinheiro na mesa e saiu: “Sabe que mais? Vai sozinha então.” Ana ficou lá, olhando o cappuccino dele esfriar, intacto.

Não se falaram mais. Orgulho bobo, daqueles que a gente nem entende depois. Bloquearam um ao outro nas redes, ignoraram as mensagens em comum de amigos preocupados. “Briga de casal”, diziam os outros, rindo. Mas não era casal. Era só amizade. Ou era mais? Os meses passaram. Pedro sentia falta das risadas dela nas noites solitárias. Ana passava pelo café e desviava o olhar, mas o cheiro de café forte a fazia lembrar dele, e doía.

Um dia, quase um ano depois, Ana entrou no café por acaso, numa tarde de chuva igual àquela. Pediu seu expresso e sentou na mesa de sempre. Olhou para o lado e lá estava ele, Pedro, com um cappuccino na frente, mexendo a canela distraidamente. Os olhares se cruzaram. Nenhum dos dois sorriu de imediato. Mas Pedro se levantou, devagar, e sentou na cadeira ao lado dela.

“Esqueci como você gosta o café”, disse ele, tentando brincar.

“Forte. Sem açúcar”, respondeu ela, com a voz baixa.

Ficaram em silêncio um tempo. Depois, riram. De nervoso, de alívio. Falaram da bobagem que os separou, da teimosia dos dois. Não disseram o resto. Não ainda. Mas o cappuccino dele estava quente de novo, e o expresso dela também. Às vezes, as rupturas por motivos idiotas servem para isso: para a gente perceber, tarde demais ou na hora certa, que o que a gente chama de amizade pode ser o amor mais teimoso de todos.

E quem sabe, num próximo café, eles admitam. Ou não. A vida, afinal, é feita dessas coisas bobas que a gente guarda no peito.

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