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Quase uma instituição

O café nunca é apenas café

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Tenho desconfiança de quem olha para um café e vê apenas café.

Porque, socialmente falando, o café é quase uma instituição.

Há o café da pressa.

O café da conversa.

O café depois do almoço.

O café que acompanha uma reunião que poderia ter sido um e-mail.

O café que alguém oferece quando não sabe exatamente o que dizer.

E existe aquele café tomado sozinho, em silêncio, quando precisamos de alguns minutos para reorganizar a própria cabeça.

Talvez Mauss gostasse dessa ideia: os objetos cotidianos nunca são apenas objetos. Eles carregam relações, gestos, obrigações, memórias e significados.

Uma xícara pode ser hospitalidade.

Um café pode ser amizade.

Uma mesa pode ser negociação.

Uma cozinha pode ser território de intimidade.

É curioso como passamos tanto tempo tentando explicar grandes acontecimentos enquanto pequenas práticas organizam silenciosamente a nossa existência.

Conversamos sobre política tomando café.

Terminamos relações tomando café.

Começamos amizades tomando café.

Planejamos mudanças de vida tomando café.

Às vezes passamos duas horas dizendo que vamos embora enquanto pedimos mais um.

A humanidade inventou a bebida e imediatamente a transformou em dispositivo social.

E talvez seja justamente por isso que gosto tanto desses pequenos rituais.

Eles nos lembram que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos.

Ela acontece entre eles.

No intervalo.

Na conversa.

Na espera.

No café que esfria porque a conversa ficou mais interessante.

Talvez uma vida boa seja composta muito menos de grandes acontecimentos do que imaginamos.

Talvez seja feita de pequenas coisas que, quando olhadas de perto, estavam sustentando tudo.

E, nesse caso, peço licença à sociologia para formular uma hipótese empiricamente questionável, mas afetivamente muito convincente: alguns problemas do mundo poderiam ser discutidos com mais calma se houvesse café suficiente.

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