BRINDE AO CAOS
O CARINHO QUE EMBRIAGA E O CASAMENTO TÓXICO
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Passei por mais uma noite de sono ruim, rolando na cama, pensando na vida, no relacionamento, no caos em que parei… Voltei à conversa que tive com meu marido na noite anterior:
— Pietro, em que você evoluiu, de verdade, com nosso casamento?
— Ah, Sabrina… Eu ganhei muito. Vim morar na Zona Sul, fiz uma graduação, viajamos, trabalho pertinho de casa, vivemos muito bem aqui. Temos conforto e uma vida muito boa!
— Pois é, Pietro… E eu? Sabe o que eu ganhei? Trinta quilos e uma suspeita de alcoolismo. Meu psicólogo vive me lembrando do meu descontrole com a bebida. Mesmo quando tenta ser sutil, ele volta ao assunto: diz que se preocupa com a minha maneira de viver. E eu sempre acabo a noite com uma taça na mão. Eu digo que não tenho problema, que tenho controle… mas, no fundo, no fundo… eu sei bem.
Minhas noites são sempre assim: reflexo da minha vida. Para onde quer que eu olhe, vejo problemas e mais problemas. Tenho uma vida boa, uma profissão, um bom salário, um marido… enfim, não deveria me preocupar tanto. Ainda assim, percebo o caos ao meu redor, como se tudo estivesse sempre por um fio.
Na manhã seguinte, acordei com uma ressaca enorme e me lembrei das conversas com meu terapeuta. Eu dizia:
— Às vezes eu nem estou com tanta vontade, mas o Pietro, atencioso, pergunta com carinho sobre o meu dia e enche minha taça. Para não desagradar, eu cedo e aproveito o prazer do momento. Até porque durmo muito melhor com duas ou três taças de vinho… Mas por que você sempre me pede para descrever nossa rotina noturna, Maurício?
Essas conversas se tornaram comuns nas sessões. Eu insistia:
— Eu entendo sua preocupação, mas tenho controle. O que são duas ou três tacinhas de vinho depois de um dia de trabalho? No fim de semana, sim… cerveja, churrasco… o que fazer? Tenho amigos que gostam de festas, de conversar, e conversa vem junto com tira-gosto e bebida!
Sou engenheira há vinte anos. Tenho uma pequena empresa: faço projetos e acompanho obras. Ultimamente, tenho estado mais em campo do que eu queria; no escritório, acabo ficando pouco. No fim de mais um dia exaustivo, eu só pensava em chegar em casa, tomar um banho quente e relaxar os pés cansados.
Depois de um trânsito caótico, cheguei aliviada e encontrei Pietro na cozinha. O perfume do jantar, sempre acompanhado de músicas suaves, trazia uma sensação imediata de bem-estar. Depois do banho, de pijama, vi meu marido receptivo e amoroso.
— Como foram as obras hoje, meu amor? — perguntou ele, enchendo uma taça de vinho e vindo me entregar.
Como de costume, contei detalhes do meu dia: cansaço, preocupação com a equipe, possíveis atrasos, outros problemas. Enquanto eu falava, Pietro deixava a taça dele sempre cheia — mas quase não bebia. Quando muito, tomava meia taça. Eu bebia e conversava. Ele escutava. Essa era a nossa rotina.
Tudo isso acabou chamando a atenção do Maurício. A partir daí, ele passou a insistir em dois pontos que me incomodavam muito: bebida e emagrecimento. E eu ficava aborrecida — para não dizer furiosa.
— Maurício, ele se preocupa comigo. Valida meus esforços. Nessa luta para emagrecer, mesmo eu reclamando, ele caminha comigo, me lembra de fazer exames, se interessa por mim! Você está implicando com ele. É verdade que ele me enche de vinho todas as noites, mas é porque vê que eu durmo melhor. E eu sempre bebi. Não é culpa dele.
Nessa conversa, Maurício percebeu, com perspicácia, o quanto eu ficava reativa quando ele insistia na postura do Pietro. E disse:
— Eu não tenho nada contra o seu marido, Sabrina. Você é minha paciente; é com você que eu trabalho. O que eu tento é entender esse exagero que está acontecendo com você. Você está bebendo todas as noites, mesmo sem vontade. Diariamente, ele a espera com uma garrafa na mão e você está bebendo praticamente sozinha. Isso não é razoável, é? Além disso, você está de dieta e precisa diminuir o álcool. O médico já te avisou do problema no fígado, e vocês tinham se alinhado em casa. Ele não bebe, mas segue te esperando com vinho todos os dias. Você precisa observar seus abusos, porque ele não parece preocupado; ao contrário, abre caminho para os seus excessos.
Eu sabia que a preocupação dele tinha sentido. Eu conhecia minha dependência desse conforto emocional com o Pietro. Estava cansada, vulnerável. A bebida virou recompensa depois de um dia difícil. Eu tinha de conversar mais uma vez e diminuir o ritmo. Difícil.
Em casa, conversei com Pietro e disse que precisava maneirar na bebida. Só que, com o passar dos dias, percebi que não adiantara. Lá estava a mesa posta, o jantar, o vinho…
— Uma taça, amor. Você precisa relaxar e dormir melhor. Não há problema. Você está dando muita moral para esse seu terapeuta entrão.
Sem forças — e para não fazer desfeita de uma taça já cheia — eu bebi. Mas, dessa vez, observei, incomodada, que novamente bebia sozinha. Quando questionei a falta de companhia, Pietro disse que estava bem, que não estava com vontade de beber “naquela noite”.
Depois dessa noite específica, uma sombra se apossou do meu coração. Minha alma pesou. Eu não dei o braço a torcer, mas Maurício estava certo sobre a postura duvidosa de Pietro. Além de não me apoiar, ele me estimulava a beber mais e mais.
Passei os dias seguintes pensando nessa conduta. Revi nossa vida. Pietro era acomodado no trabalho de meio expediente, chegava mais cedo, fazia o jantar, caminhava com o cachorro. No geral, tudo parecia tranquilo. Nós não brigávamos; não havia nada aparente que me incomodasse. Tínhamos um bom casamento — ou era o que eu dizia a mim mesma.
Era doloroso constatar que, nos meus planos de cuidar melhor da saúde, eu não podia contar com meu marido. Sempre comida farta, sempre vinho na mesa. Ele desestimulava minhas caminhadas nos fins de semana. Em contrapartida, ele se cuidava: malhava toda tarde, não exagerava na comida, estava sempre “bem”. Não era dado a excessos — ao contrário de mim, presa a um ciclo mortal. Faltava equilíbrio para eu cuidar de mim mesma. Percebi que estava completamente descontrolada na bebida e na comida; e, assim, com a saúde debilitada. Voltei, então, ao questionamento inicial: “O que eu evoluí com este casamento?”
Pensando em tudo isso, minha cabeça girava e eu não via saída. O comportamento do meu marido me fez perceber que o que antes parecia carinho e vontade de agradar, aos poucos, virou desconexão entre nós. Pietro não se incomodava com a minha necessidade de diminuir excessos. Tratava a situação como frescura minha e intromissão do Maurício — chegando até mesmo a sugerir que eu procurasse outro terapeuta.
As semanas passaram e nada mudou. Eu retomei a conversa várias vezes, e ela foi ficando tensa:
— Por que você me oferece bebida e não me acompanha? Você se exercita, mas me desestimula a caminhar. Eu não vejo você me apoiando como eu achava. Você sempre faz as suas coisas…
Uma coisa eu percebi, como fato incontestável: minha vida precisava mudar.
Mandei mensagem para Maurício. Agradeci o tempo em que ele me acompanhou e informei que buscaria um novo terapeuta, outras propostas de tratamento. As sessões com ele estavam ficando pesadas demais e, naquele momento, pareciam trazer ainda mais problemas para a minha vida…
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024), e colaboradora do Café Literário.