Arretado
O Carnaval que faz o Nordeste brilhar como o sol
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Quando o primeiro surdo bate, o Nordeste acorda em festa. É como se o chão aprendesse a dançar e o vento resolvesse cantarolar refrão antigo. O Carnaval por aqui não pede licença: entra pela porta da frente, espalha confete na sala e pendura alegria no varal. Arretado é pouco.
Nas ladeiras, o frevo corta o ar feito faca de luz. Pernas voam, sombrinhas giram, e a cidade inteira vira um coração acelerado. Em cada esquina tem um sorriso suado, um passo improvisado, um encontro marcado só pelo acaso. É a geometria do corpo dizendo que alegria também é ciência exata — soma de gente, ritmo e sol.
No Recife e em Olinda, a história desce do pedestal e cai no meio do povo. O maracatu pisa firme, ancestral, lembrando que o Carnaval é ponte entre tempos: o ontem que resiste, o hoje que pulsa, o amanhã que se anuncia em cada batida. As alfaias falam grosso, os tambores respondem, e a rua entende tudo sem precisar de tradução.
Salvador vira um rio de gente. O trio elétrico é navio e farol, puxando multidões que cantam em coro como se o céu tivesse descido pra acompanhar. Axé é abraço coletivo, suor que vira benção, refrão que cola na memória e não solta mais. Ali, a cidade aprende a respirar no mesmo ritmo, como se fosse um só corpo.
No interior, a festa ganha outro tempero. Tem marchinha na praça, careta rindo por trás da máscara, bloco que passa uma vez por ano e faz falta o resto do tempo. A fantasia é costurada na véspera, a maquiagem é espelho rachado de felicidade, e a alegria cabe inteira num copo de plástico — desses que a gente guarda como lembrança sem perceber.
O Carnaval nordestino também é resistência. Em cada estandarte erguido, uma afirmação de identidade. Em cada batuque, a lembrança de quem veio antes e não largou o tambor. É cultura viva, que se reinventa sem pedir desculpa, que se protege no coletivo, que se espalha como notícia boa.
E tem o depois. Ah, o depois. Quando o confete vira poeira dourada e a rua volta a ser rua, fica um silêncio que não é vazio — é saudade. Fica a sensação de que algo grande passou por ali e deixou marca. Fica o corpo cansado e a alma cheia, como quem voltou de viagem longa sem sair do lugar.
No Nordeste, Carnaval não é só festa: é linguagem. É jeito de dizer “estamos vivos” com música alta e riso aberto. É promessa renovada de que, apesar das durezas, sempre haverá um bloco pra juntar a gente, um ritmo pra levantar o astral, um brilho pra lembrar que a vida, quando quer, também sabe ser arretada.
E quando o próximo surdo bater, a gente sabe: o Nordeste vai brilhar de novo. Porque aqui, alegria não é exceção. É tradição.