Prazeres renovados
O Cerrado, a estrada, as pousadas e o Pantanal
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Amigos de longa data, entraram no carro e partiram sem pressa, como quem já não precisa provar nada ao mundo. Ele, com os cabelos grisalhos anunciando o tempo sem pedir desculpas; ela, com a leveza de quem aprendeu que o corpo também guarda memórias felizes. Saíram do Cerrado de galhos secos, tortos e quebradiços, levando na bagagem aquilo que não se vê. Só havia silêncios, pausas e vontades adiadas.
A estrada seguia longa, quase meditativa, como se cada quilômetro fosse um convite ao esquecimento do que já não importava. E havia ali um simbolismo inevitável, pois deixavam para trás a aridez da paisagem e de certos anos, em direção ao Pantanal, onde a água insiste em existir, mesmo quando o mundo parece ter desaprendido a fluir.
No fim de cada tarde, paravam em pousadas simples, dessas que a rodovia oferece sem promessas. Sempre o mesmo detalhe de apenas um quarto disponível, apenas uma cama de casal. E, curiosamente, nenhum dos dois parecia disposto a questionar o acaso.
Na primeira noite, houve silêncio. Não desconforto, mas apenas o reconhecimento de um tempo que havia passado entre eles como um rio subterrâneo. Deitaram-se com cuidado, respeitando uma distância feita mais de história do que de espaço.
Mas o silêncio, às vezes, é o primeiro gesto. Na segunda noite, já havia outro tipo de presença. Um braço que encosta, um riso mais demorado, um olhar que não se desvia com tanta pressa. A cama deixava de ser território neutro e começava a se tornar território de lembrança.
E então veio a terceira parada. Ali compreenderam, sem precisar nomear, que entre quatro paredes o amor não envelhece; apenas aguarda. Não havia urgência, nem ansiedade. Havia tempo. E o tempo, quando não cobra, devolve.
Ela encostou a cabeça no ombro dele como quem reencontra um lugar conhecido. Seus dedos tocaram o braço dele com a naturalidade de quem já não precisa pedir licença. Ele respondeu com um gesto quase imperceptível, mas suficiente para dizer tudo. Como se ainda houvesse algo ali.
Não era juventude. Era outra coisa, mais inteira. Na delicadeza dos gestos, descobriram que o desejo pode ser mais profundo quando não precisa provar intensidade. Era como o Pantanal que se aproximava sempre vasto, silencioso, inevitável.
E assim seguiram. A cada nova pousada, menos passado. A cada noite, mais presença. O Cerrado já não os acompanhava; seus galhos secos ficaram para trás. Dentro deles, algo havia florescido sem alarde.
Quando enfim chegaram às águas largas do Pantanal, entenderam que a viagem não era sobre distância. Era sobre retorno. E há retornos que não fazem barulho; apenas se acomodam, como um corpo que encontra o seu lugar ao lado de outro, no exato ponto onde o tempo, por fim, decide descansar e viver prazerosamente.
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José Seabra é CEO Fundador de Notibras