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Ganges

O corpo líquido da deusa e a eternidade que corre

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Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

À primeira luz da manhã, quando a névoa ainda cobre os ghats de Varanasi como um véu antigo, o rio Ganges desperta. Não é apenas água que se move — é memória, é mito, é divindade em fluxo. Para os hindus, o Ganges não nasce da terra: desce do céu, trazido pelos deuses para lavar o mundo do peso de suas próprias faltas.

Chamado de Ganga Ma, a Mãe Ganges, o rio é venerado como manifestação viva da deusa Ganga, aquela que aceitou cair dos céus para salvar os homens, mesmo sabendo que sua força poderia destruir o mundo. Foi Shiva quem aparou sua queda, prendendo o impacto nas dobras de seus cabelos, permitindo que o sagrado chegasse à terra em forma de rio — manso na superfície, infinito no significado.

Cada gota do Ganges carrega uma promessa: a de purificação. Nele se lavam corpos e almas, pecados e ciclos. Banhar-se em suas águas é mais do que um ritual: é um reencontro com o princípio. Ali, o tempo deixa de ser linha e se torna círculo. O passado se dissolve, o futuro se aquieta.

Nos ghats, a vida e a morte convivem sem escândalo. Crianças brincam à margem enquanto piras funerárias crepitam ao entardecer. Cinzas retornam à correnteza, não como fim, mas como passagem. No Ganges, morrer é continuar, e viver é aprender a soltar.

A deusa Ganga não exige templos de pedra. Seu altar é o próprio curso do rio, que serpenteia por vilas, cidades e séculos. Mesmo poluído pela mão humana, o Ganges permanece sagrado — porque o divino, para o hinduísmo, não se desfaz diante da imperfeição. Pelo contrário: é ali, no contato com o caos, que a presença divina se revela.

À noite, quando milhares de lamparinas são entregues à correnteza, o rio se transforma em um céu invertido. Estrelas flutuam sobre a água escura, e cada chama carrega um pedido, um lamento, um agradecimento silencioso. Ganga segue adiante, levando tudo consigo, sem julgar, sem reter.

O Ganges ensina que o sagrado não é estático. Ele corre. Ele muda. Ele acolhe. É rio, é mãe, é deusa. E enquanto houver alguém disposto a se ajoelhar à sua margem, tocar a água com a ponta dos dedos e fechar os olhos, Ganga continuará descendo dos céus todos os dias.

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