SUSTO NA NEBLINA
O CURUPIRA DA PONTE E AS GOIABAS DA FEIRA
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Faz tempo isso. Pelo menos uns vinte e cinco anos. Eu estava no interior do Rio, na terra onde minha mãe nasceu. Coisa de jovem: teve festa na cidade vizinha e, como naquele tempo todo mundo era amigo, ficamos até tarde, esticando a alegria o quanto deu.
Lá pelas tantas, um grande amigo meu começou a reclamar de uma dor de dente daquelas de subir pelas paredes. Como boa carioca prestativa, não tive coragem de deixar o rapaz voltar sozinho. Fui com ele no ônibus, deixei o coitado na porta de casa, avisei a mãe e me despedi. Dentista? Só no dia seguinte.
O problema começou quando eu saí da vila dele. O relógio já tinha passado da meia-noite e eu, com a mentalidade de quem vive na capital, achei que o ônibus passaria a qualquer momento. Doce ilusão. O silêncio do interior era acompanhado pelo “ruço”, aquela névoa fininha e gelada que desce e apaga o mundo a poucos passos.
Quando percebi que o ônibus não vinha mais, respirei fundo e comecei a caminhada. Eram uns vinte e cinco minutos até a casa da minha avó. E é aí que o “medo de estimação” do carioca aflora. No Rio, a gente tem medo de assalto, de sombra, de esquina… ali, naquele breu, eu sentia falta até do barulho da bagunça.
Tudo piorou quando cheguei na ponte que ligava os dois lados da cidade. No dia anterior, eu tinha assistido a A Marvada Carne, e a imagem do Curupira, com os pés virados para trás, não saía da minha cabeça.
De repente, ouvi: tuc. tuc. tuc.
Tinha alguém atrás de mim. Eu parava, os passos paravam. Eu andava, os passos acompanhavam. A névoa não deixava ver quem ou o quê era. Meu coração parecia uma escola de samba em dia de desfile. Pensei em correr, mas veio o medo de cansar no meio da ponte e ser pega pelo coisa-ruim.
Comecei a dar umas passadas tão largas, mas tão largas, que meus tornozelos chegavam a estalar de dor. Eu não olhava para trás nem por decreto. Já estava quase atravessando a ponte na base da fé e do desespero.
Foi quando, num milagre, a nuvem abriu de uma vez. Olhei para trás, pronta para ver o Curupira, e o que eu vi?
Um senhorzinho. Um pobre coitado, carregando seus cestos, indo montar a barraquinha na única feira livre da cidade. Madrugada de domingo. Ele ia vender… goiabas.
Meu coração deu um solavanco que achei que fosse parar de vez. O senhorzinho me encarou com a mesma cara de espanto. Naquela ponte, éramos dois assustados: eu achando que ele era um bicho da floresta. Ele, muito provavelmente, achando que eu era uma maluca dando passadas de gigante no meio da neblina.
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Denise Marchi, carioca, é professora de português e italiano e gestora ambiental em formação.