As melhores memórias
O dia não anuncia milagres
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O dia não anuncia milagres.
Não há fogos no céu,
nem notícias que mudem o rumo do mundo.
Há apenas a sala iluminada
por um sol que entra de lado,
manso,
como quem também quer descansar.
Brinco com os cães
eles correm pela casa
como se cada passo fosse urgente,
como se a alegria fosse uma missão inadiável.
Riem com o corpo inteiro,
com o rabo,
com os olhos,
com a língua de fora.
Minha filha gargalha
sem saber que está construindo
as melhores memórias da minha vida.
Seguro suas mãos pequenas
e penso que o tempo é veloz demais,
mas hoje ele se comporta
hoje ele anda devagar.
Na cozinha,
entre um café requentado
e um prato que espera a próxima refeição,
converso amenidades com meu marido.
Falamos do mercado,
da semana que começa,
de planos simples.
Nada grandioso.
Mas há cumplicidade na pausa,
há amor nas entrelinhas.
Nada de extraordinário acontece.
E, ainda assim,
tudo acontece.
Porque a felicidade não faz barulho.
Ela se instala
na rotina,
no pelo espalhado pelo chão,
na xícara esquecida sobre a mesa,
no abraço que não precisa de motivo.
É uma felicidade calma,
dessas que não pedem fotografia
porque já estão eternas
dentro da gente.
O dia termina
sem promessas épicas,
mas com o coração sereno
como quem descobriu
que o extraordinário
é isso:
um dia comum
em que o amor
não falta.