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O dinheiro volta, o tempo não

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Se tiver a chance, vá.

O dinheiro você ganha de novo. O tempo, jamais.

Vivemos organizados como se a vida fosse um fundo de investimento de longo prazo. Calculamos riscos, projetamos estabilidade, adiamos experiências em nome de uma segurança futura que raramente chega na forma prometida. No entanto, há um dado estrutural que nenhuma planilha altera: o tempo é irrecuperável.

Max Weber analisou como a modernidade transformou o tempo em recurso produtivo. “Tempo é dinheiro”, tornou-se máxima moral. Mas essa racionalização trouxe um efeito colateral: passamos a tratar a experiência como custo, e não como valor.

O dinheiro é meio. O tempo é condição de existência.

Georg Simmel já observava que a economia monetária cria a ilusão de equivalência universal tudo pode ser compensado. Só que há coisas que não entram na lógica de reposição. Um encontro adiado pode não acontecer de novo. Uma viagem pode deixar de fazer sentido. Uma oportunidade emocional pode não reaparecer.

Não se trata de irresponsabilidade financeira, nem de romantizar impulsividade. Trata-se de discernimento. Há momentos em que a escolha prudente é ir. Ir aprender, ir tentar, ir ver, ir sentir. Porque certas experiências só fazem sentido naquele intervalo específico da vida.

No Nordeste a gente entende bem isso quando a chuva chega: quem pode, planta logo. Esperar demais pode significar perder a estação. O tempo tem ritmo próprio. Não negocia.

Dinheiro se recompõe com trabalho.

Tempo se dissipa com silêncio.

Talvez a maturidade esteja em perceber que segurança absoluta é ficção confortável. A vida é contingente, como diria Anthony Giddens. E a contingência exige decisão.

Se houver chance legítima, vá.

Não porque seja inconsequente.

Mas porque compreende que o que realmente estrutura uma vida não é apenas o saldo bancário, é a soma das experiências vividas no momento em que ainda eram possíveis.

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