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Ernesto, o humilde

O ensaio das aparências

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Ernesto possuía reputação ilibada. Até mesmo os desafetos reconheciam no sujeito a aura da mais pura dignidade. E como ele era humilde!

— Meus parabéns, Ernesto. Você fez um excelente trabalho. Nem sei o que seria da empresa sem a sua capacidade.

— Obrigado, Chefe. Mas o mérito deve ser repartido com toda a equipe.

Outra feita, Ernesto ouviu os gritos da vizinha. E lá foi o paladino acudir quem pedia socorro. Ao chegar ao apartamento, o porteiro e a síndica, atônitos, não souberam o que fazer. Letícia estava em trabalho de parto.

— Luís, chame o SAMU. Dona Marília, preciso de panos fervidos. Rápido!

Enquanto o porteiro acionava a emergência, a síndica foi esterilizar algumas toalhas.

— Estou com medo, Ernesto!

— Calma, Letícia, tudo vai ficar bem.

— E o meu bebê?

— Ele está bem.

Menos de meia hora depois, era possível ouvir a sirene da ambulância a caminho. No entanto, assim que a equipe médica entrou no apartamento, o pequeno Daniel já chorava nos braços do parteiro de última hora.

— Obrigada, Ernesto! Nem sei o que seria da gente se não fosse você.

— Não há de quê, Letícia. Qualquer um faria o mesmo no meu lugar.

Ernesto ensinava matemática para um grupo de crianças carentes, lia contos, crônicas e declamava poesias em um asilo de velhinhos, escutava com atenção as desventuras amorosas até de desconhecidos e sempre dava generosas gorjetas aos garçons. Como já dito, até os desafetos o tinham em alta conta. E foi justamente um deles, o Marcolino, colega de trabalho, que fez questão de enaltecer as qualidades incomuns do quase inimigo.

— Ernesto, tu sabe que nunca fui com a tua cara, né?

— Nunca desconfiei.

— Pois é a mais pura verdade. Talvez seja implicância da minha parte. Mas hoje quero lhe dizer que nunca vi um tipo mais altruísta que tu. E, acima de tudo, humilde. Tu é a humildade em pessoa.

— Muito agradecido, Marcolino. E pode deixar, meu amigo, prometo jamais decepcioná-lo. Sei fingir humildade muito bem.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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