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Vozes da Literatura

O escritor Leo Teixeira e a arte de desmontar o mecanismo humano

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Para o escritor e jornalista Leo Teixeira, a literatura não é um museu de monumentos estáticos, mas um ecossistema vivo onde os clássicos universais e as vozes do regionalismo dialogam em tempo real. Longe de buscar uma mímica do passado, o autor enxerga na herança de nomes como Machado de Assis, Guimarães Rosa e os grandes mestres russos um rigor artesanal indispensável para compreender a maleabilidade da linguagem e a própria complexidade psicológica humana. Em sua visão, esse vasto repertório literário atua como um banho de humildade e senso de proporção: enquanto a estética e o estilo mudam conforme a época, os dilemas humanos fundamentais permanecem os mesmos. É justamente essa bagagem que alimenta seu processo criativo, transformando o ato de ler em uma ferramenta técnica de engenharia textual capaz de desmistificar o bloqueio criativo e guiar sua escrita pelas águas da subtextualidade e da prosa poética.

Nesta entrevista exclusiva para a coluna Vozes da Literatura, Teixeira nos conduz pelos bastidores de sua criação e revela como a leitura crítica funciona como o verdadeiro motor que destrava sua ficção nos momentos de impasse. Afastando qualquer mistificação em torno da inspiração, o autor compartilha como o hábito de “desmontar o motor” de grandes obras — investigando os mecanismos de tensão de Julio Cortázar ou o fluxo de consciência de Clarice Lispector — remove o medo do erro e abre espaço para a ousadia estilística. Ao longo da conversa, o escritor detalha como essa sólida bagagem de leitor molda sua voz contemporânea, oferecendo aos leitores um vislumbre fascinante de como o repertório clássico e a sensibilidade regional se fundem para dar forma e limite às suas próprias narrativas.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Acredito que os clássicos não são monumentos estáticos, mas conversas textuais perenes que se evoluem. Essa importância não é exclusiva dos clássicos, mas um desconhecido regional tem alto valor quando marca uma emoção e transforma a visão de mundo de alguém. Conhecer a literatura local e nacional deveria ser praxe entre os que participam dos processos literários ou de leitura cultural. Infelizmente o mercado e o costume andam na contramão disso. Minha voz na escrita criativa não busca mimetizar o século XIX ou XX, nem vasculhar os tesouros anteriores, ou herdar deles apenas o rigor artesanal. Ler Machado de Assis me ensina o poder da ironia e da subtextualidade. Uma ironia satírica que também é encontrada na desconstrução da realidade em Miguel de Cervantes; a forma alegórica organizada matematicamente de Dante Alighieri é um privilégio estilístico; Guimarães Rosa e Eugência Sereno me recordam que a linguagem é maleável; Raduan Nassar e Mia Couto mostram o poder da prosa poética que se confronta com a essência lapidada, cortando palavras em Dalton Trevisan; a inquietação existencial, filosófica e social pode se misturar muito bem como nos mostra Carlos Drummond de Andrade; os russos são mestres em descrever complexidades psicológicas, buscando utilidade coletiva nos seus textos; a literatura fantástica mostra que desconstruir realidade causa impacto; desafiar a lógica com um estilo labiríntico e metafísico é outro impacto de Jorge Luís Borges. Com tanta bagagem clássica e regional já existente no mundo das letras, quanto mais mergulho, mais me sinto ínfimo e ciente de que o conhecimento ainda está longe de ser grande. Aliás, sua completude torna-se impossível, no vasto mundo das obras já publicadas. Muitas delas, de riqueza inestimável, ainda ficam desconhecidas. Tudo isso molda minha escrita ao me dar um senso de proporção: sei que os dilemas humanos mudam pouco, o que muda é a moldura (sua estética e seu estilo). A leitura crítica, por sua vez, é o que destrava a criação. Quando um texto meu empaca, não procuro inspiração mística; mudo de papel. Passo a ler grandes obras como um engenheiro que desmonta um motor para ver como ele funciona. Compreender por que a tensão de um conto de Julio Cortázar funciona, ou como Clarice Lispector sustenta um fluxo de consciência sem perder o leitor, desmistifica o processo. O bloqueio criativo geralmente nasce do medo do erro; a leitura crítica nos mostra que os mestres também calcularam cada passo.

“A literatura é a filosofia em carne e osso”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

A literatura é a filosofia em carne e osso. Para os conflitos que desenvolvo, cito duas grandes correntes que podem servir de bússola, que são úteis em boa parte das intenções. O Existencialismo (Sartre, Camus e Kierkegaard) descreve a antiga ideia de que somos condenados a ser livres e a carregar o peso de nossas escolhas (isso é motor perfeito para um drama). Pensar assim ajuda a criar personagens que frequentemente enfrentam o “absurdo camusiano”, numa busca de sentido em um mundo que muitas vezes não o oferece. Um aprofundamento esperançoso seria levar em conta a Logoterapia muito difundida pelo psiquiatra austríaco Viktor Frankl. Outra corrente bem conhecida pelos textos do filósofo Emmanuel Levinas (A ética da Alteridade), se mostra no questionamento de como respondemos ao sofrimento alheio e à presença do outro. Em tempos de polarização, colocar personagens em situações onde são forçados a enxergar a humanidade de seus antagonistas é uma necessidade moral e estética, desenvolvendo a empatia (tão rara na sociedade, na internet e nas opiniões proferidas). Uma outra oportunidade de aprendizado que surgiu em 2025 foi apresentar um podcast chamado Cabeça Aberta, transmitido pela TV Dimensão no Youtube. Durante a Jornada pela Fé, tive a oportunidade de dialogar com estudiosos e líderes de diferentes tipos de crença. Ateu, Padre, Pastor, Espírita, Muçulmano, Judeu, Hinduísta, Testemunha de Jeová, Bahá’í, Bruxo, Wicca, Umbandista, Quimbandeiro, Juremeiro, Candomblecista, Budista etc. Pude entrevistar cada um deles e muitas conversas nos bastidores foram ainda melhores. Não só a filosofia, mas contatos com diferentes culturas e crenças nos torna aptos a compreender a essência das multiplicidades humanas.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica, no tempo de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Drummond, funcionava como o respiro poético no jornal de papel. Pra mim, a melhor parte do jornal. Tenho a coleção completa da Editora Ática intitulada Para Gostar de Ler. E ela me marcou muito. Também tive a oportunidade de escrever semanalmente por mais de 20 anos nos jornais O Popular, Diário da Manhã (e mais raramente no Opção). Atualmente, a crônica aparece espremida entre tweets, reels e notificações, mudando de suporte, mas sua urgência permanece a mesma, se não maior. Se antes a crônica registrava o ritmo da cidade, hoje ela tem o papel de desacelerar o olhar. Em um mundo de consumo rápido e superficial, a crônica urbana contemporânea é um ato de resistência: ela resgata o detalhe invisível, o encontro fortuito no metrô, a humanidade que a pressa digital tenta soterrar. Ela não compete com a velocidade da rede; ela se impõe pelo silêncio e pela pausa. Aos usuários ciscadores de telas em redes sociais e plataformas semelhantes, com a dopamina piscando cenas rápidas e textos curtos como emoticons, encontrar leitores interessados é a maior dificuldade. Mesmo em outras formas visuais como Youtube, ainda se pode encontrar diálogos interessantes. Lembro de ter consumido um diálogo muito entre um ateu e um padre que durou 6h30. Essa conversa daria um bom livro! É estranho falar “antigos blogs”, mas é isso: os antigos blogs parecem terem sido substituídos por essa prática de postagens curtas e rasas. Mas a resistência persiste! No mesmo velho dilema entre o e-book e o livro físico.

“A liberdade literária cria absolutamente do zero um fato que nunca existiu na realidade”

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

A tradição brasileira, na época de Euclides da Cunha, depois Rodolfo Teófilo, passando pelo romance de 30, sempre teve raízes na realidade social. O equilíbrio entre o rigor do fato e a liberdade da invenção é uma dança de mútua alimentação. O fato entrega a textura da verdade: o jargão de uma profissão, a burocracia de uma repartição pública, a precisão geográfica de um cenário regional, o causídico relato testemunhal coletado por um historiador. A ficção, contudo, entra para preencher as lacunas que o jornalismo não alcança: a interioridade, o segredo inconfessável, a verdade emocional, os aspectos simbólicos e aventureiros criados. O método jornalístico é válido para investigar o mundo exterior e a liberdade literária para traduzir o mundo interior. Inclusive muitas vezes, a liberdade literária cria absolutamente do zero um fato que nunca existiu na realidade. Eis o poder da ficção.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

A chamada pós-verdade opera distorcendo fatos provavelmente para validar preconceitos, entre outros pretextos. A literatura caminha no sentido oposto: ela cria mentiras (ficções) para revelar verdades profundas sobre a nossa condição. Em um mundo saturado de narrativas manipuladas, a literatura é um refúgio porque ela não exige o clique efêmero ou a adesão ideológica cega; ela exige empatia, vontade e tempo. Ela atua como denúncia não necessariamente por ser panfletária, mas por expor as nuances e as ambiguidades que as mentiras simplistas da pós-verdade tentam apagar. A boa ficção complexifica o que o debate público empobreceu. Ela pode inclusive denunciar sem haver o risco de receber uma citação de um oficial de justiça notificando você por um processo criminal de crime contra a honra. Nesse quesito ficcional, procuro aventurar em outras nuances da atuação. Sou ilusionista profissional, apreciador inclusive do mentalismo. Buscar verdades no texto ficcional é como a cultura brasileira que tenta descobrir os segredos de um truque de mágica: perde-se rapidamente o encanto e a oportunidade de se encantar com o texto ou com o ato mágico, que acabam escapando.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

O domínio das técnicas de gênero (seja a estrutura de três atos, o turning point, ou o manejo do narrador não confiável) funciona como as regras da partitura para um músico de jazz. Só é possível improvisar com genialidade quando se conhece perfeitamente o instrumento. O autor amador muitas vezes confunde intuição pura com arte e acaba refém de clichês estruturais sem perceber. O escritor profissional conhece as regras tão bem que sabe exatamente quando, como e por que quebrá-las para causar o efeito estético desejado. A estrutura não é uma cela; é o andaime que permite ao prédio subir reto. Mas é possível um autor amador, que também é um leitor contumaz, criar genialidades instintivas. Isso ocorre com um bom músico intuitivo. Se o blues para mim é melhor que o jazz, aí é questão de apreço estilístico. Ninguém é unanimidade e há espaço para todos.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Acredito que meu lugar de fala não seja uma limitação temática, mas o ponto de partida geográfico, histórico e social de onde observo o mundo. O mesmo olhar de alguém imerso na realidade brasileira contemporânea, com todas as suas contradições e belezas. Essa consciência pode trazer maturidade à escrita. É vantajoso saber quais dores posso retratar por vivência e quais devo abordar por meio de uma escuta profunda e respeitosa, com alteridade. O público leitor atual é extremamente perspicaz; ele detecta a quando não há autenticidade imediatamente. Quando escrevo a partir da minha verdade, sem tentar simular uma erudição eurocêntrica ou uma vivência que não é minha, a conexão emocional se dá pela honestidade do texto.

“O romantismo do século XIX nos vendeu a imagem do gênio isolado em sua torre de marfim”

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Concordo integralmente com a provocação de Daniel Machi. O romantismo do século XIX nos vendeu a imagem do gênio isolado em sua torre de marfim, mas a realidade do mercado editorial atual, principalmente o mercado independente: é coletiva, comunitária. A vaidade e o egoísmo de qualquer autor são defeitos terríveis. Tem muito artista sendo seus piores inimigos por isso. Chega a ser um ato soberbo e arrogante. Ninguém sabe tudo e nem deveria se achar a última bolacha do pacote. Enquanto muitos se acham detentores de troféus e vencedores de uma corrida ilusória, inclusive cobrando cachês altos de palestras, outros desconhecidos vendem mil vezes mais em editoras independentes ou sistemas de venda e publicação individual (saindo das teias de distribuidoras e editoras). Quando escritores se unem em redes de apoio mútuo, indicando-se reciprocamente, organizando coletivos e compartilhando palcos, o ecossistema literário inteiro se fortalece. A literatura não é um jogo de soma zero onde o sucesso de um significa o fracasso do outro. Quanto mais leitores um autor forma, mais o hábito da leitura se expande, beneficiando todos. Publicações coletivas também são muito bem-vindas!

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Embora a execução do texto (o momento de encarar a página em branco) permaneça essencialmente solitária, o processo de maturação da obra se beneficia imensamente do coletivo. As oficinas e grupos de leitura crítica funcionam como um espelho de laboratório. Eles nos ajudam a perceber os nossos vôos cegos. Talvez aquela metáfora que achávamos genial, mas que ninguém entendeu; aquele ritmo que funcionava na nossa cabeça, mas que ficou truncado para o leitor. O feedback qualificado limpa os excessos do texto e acelera o processo de autocrítica que, sozinho, o autor levaria anos para desenvolver. Participar dessas oficinas é sempre uma excelente oportunidade. Cito o exemplo da União Brasileira de Escritores – Goiás, que sempre tem oferecido várias oficinas ao longo dos últimos anos.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

A postura de Eduardo Cesario-Martínez é sopro de otimismo extremamente necessário, embora eu a encare com um filtro de ponderação. A internet operou uma revolução inegável, quebrando os monopólios dos grandes guardiões da cultura. Inclusive as grandes editoras e suplementos literários tradicionais: agora já existem poderosas vozes talvez consideradas periféricas, regionais e experimentais que já encontraram seu público sem intermediários. Contudo, democratizar o acesso à publicação não significa automaticamente elevar a qualidade média. Temos hoje um volume sem precedentes de textos, o que gera ruído e saturação. A tecnologia facilita o surgimento de novos talentos, mas o crivo do tempo, da leitura crítica e do amadurecimento estilístico continua sendo o mesmo de séculos atrás. A melhor geração será aquela que souber usar a velocidade da rede sem abrir mão da lentidão necessária para a sua profundidade. Preciso inclusive elogiar uma possibilidade. Um ótimo escritor goiano continua encontrando dificuldades colossais em chegar como destaque numa prateleira badalada. Ainda há máfias de divulgação, grife e crivo preconceituoso. Vou citar o exemplo de Delermando Vieira que, além de goiano, pode ser o escritor brasileiro com maior quantidade de premiações literárias. Acho difícil encontrá-lo como destaque em alguma grande livraria nacional ou ser encontrado em listas oficiais. Por outro lado, cito como exemplo a existência de plataformas culturais da internet que são mais badaladas que quaisquer dessas livrarias.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Ela pode ser as duas coisas, inclusive de forma dialética. A escrita é fuga quando nos permite construir mundos alternativos, flertar com o fantástico e o mistério, suspendendo as leis duras do cotidiano para explorar o impossível. No entanto, essa fuga é um vetor que sempre faz o retorno para o espelho. Ao escrever sobre um mistério sobrenatural ou uma distopia, posso estar, no fundo, processando minhas angústias mais íntimas frente a finitude, ao isolamento e às injustiças do mundo real. O fantástico nos afasta da realidade apenas para que possamos olhar para ela de volta com mais nitidez.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Viver apenas de literatura num país de poucos leitores e pequena valorização cultural é, além de utopia, ilusão. Não tenho conhecimento de autores brasileiros sendo muito bem pagos por grandes editoras, como ocorre em outros países. Ainda assim, a literatura que se alimenta apenas de literatura corre o risco de se tornar anêmica, autorreferencial. Minhas experiências e atuações fora das páginas funcionam como as minhas principais fontes de oxigênio criativo. Sou escrivão de polícia há 27 anos, lidando com as mazelas, sofrimentos e crimes, entre pouca valorização institucional (menos ainda governamental, apesar das propagandas não dizerem isso), ínfima estrutura, excesso de trabalho e poucos servidores. Sou formado em Direito e Psicologia. Atuei como terapeuta por mais de 10 anos. Além de ter escrito semanalmente em jornais por mais de 20 anos, fui professor de português, inglês e hipnoterapia, entre outras áreas da saúde mental e autoconhecimento. Apresento o podcast falado acima há um ano e nos fins de semana sou frequentemente chamado para fazer shows de mágica, mentalismo e ilusionismo, ou palestras com mágica. Apesar disso tudo, tento ser um pai bem presente com os filhos, levando pra escola, ensinando a fazer tarefa etc. Talvez este seja o motivo de minha presença na internet ou redes sociais ser pequena. Acredito que transitar por outras áreas traz um rico repertório existencial e prático. Isso ajuda com o vocabulário técnico de um personagem, a compreensão de dinâmicas burocráticas, o entendimento psicológico de conflitos reais ou o funcionamento de uma comunidade regional. O olhar polímata nos impede de criar personagens corriqueiros ou específicos, já que as visões de mundo são absolutamente múltiplas.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Este parece o grande mal-estar do escritor do século XXI. O algoritmo exige constância, superficialidade e polêmica; a literatura exige tempo, silêncio e nuance. Por isso sou estranho, desleixado e dinossauro na internet. Eu desconheço celebridades (soube da existência da tal Virgínia, por exemplo, tem pouquíssimo tempo em 2026), nem acompanho mais programações de TV. Definitivamente sou o menos adequado a dar dicas sobre divulgação. Mas acredito que o segredo para não corromper a essência do trabalho é focar na autenticidade dos bastidores. Rede social é como um truque de mágica. Ela mostra uma aparência de quem não é, sustentando uma atuação treinada para não revelar suas mazelas, ou, por outro lado, revela com escárnio a brutalidade da bolha que xinga e comete preconceitos em comentários horríveis. Conteúdos vazios geram engajamento. Gatilhos mentais, dancinhas e poses sensuais ficam na moda. Prefiro um podcast denso de ideias com 7 horas de duração. Faço parte de um grupo pequeno desses apreciadores, porém crescente. Talvez o uso da internet como extensão do caderno de notas, onde se compartilha leituras, insights sobre o processo de escrita, vislumbres de pesquisa etc seja uma boa alternativa pra isso. Quando o leitor percebe que a sua presença digital é um convite honesto para o seu universo criativo, e não um comercial incessante, o engajamento deixa de ser uma métrica de vaidade e se torna uma comunidade real. Mesmo assim, acho difícil o vício do algoritmo entregar tais conteúdos sem links patrocinados. Mas quem sabe dá certo!

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Espaços como o Café Literário, revistas independentes e portais de jornalismo cultural são os verdadeiros pulmões do mercado editorial hoje. Aliás, são iniciativas louváveis! As grandes editoras, muitas vezes pressionadas por margens de lucro e crises financeiras, tendem a apostar no que acreditam ser o mais seguro: autores já consagrados ou fenômenos de vendas internacionais. São esses canais alternativos e independentes que assumem o risco do erro, que oxigenam o meio e que funcionam como a primeira vitrine para a literatura fantástica nacional, para os novos regionalismos e para a crônica experimental. Sem eles, a literatura brasileira seria um deserto de repetições. Você está lendo isso agora graças a essa iniciativa!

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Gosto de perguntas densas e reflexivas como essa. Difícil escolher uma que revele algo dos meus diferentes estilos, mas vou citar uma frase que representa meu propósito de vida. O ser humano anda tão mesquinho, egoísta e cruel que se distanciou dos verdadeiros propósitos. Sem empatia, entram em guerras e se exterminam fisicamente ou nas mentes. Nessa era em que nos empurra para o cinismo, para a pressa e para o julgamento sumário, ler e escrever ficção são atos de desaceleração e de profunda atenção ao outro. Que a minha obra possa lembrar ao leitor que, por trás da aparente banalidade do cotidiano ou sob o manto do mistério mais inexplicável, há sempre uma camada de humanidade complexa, sagrada e digna de ser compreendida sem simplificar. Na mágica tento relembrar as impossibilidades que se realizam quando o encanto e o sonho pueril acreditam com mais veemência. Gosto de levar alegria e encanto para quem precisa. Por isso, cito essa frase: Não anestesie a sua capacidade de se espantar com o mundo!

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Leonardo Teixeira é autor de 10 livros. Pós graduação em Direito e Psicologia, é palestrante e ilusionista profissional. Apresenta o podCast Cabeça Aberta da TV Dimensão: https://www.youtube.com/watch?v=K5ttEhQZsvM
Contatos:
E-mail: palestranteleo@gmail.com
Instagram: @magicotioleo
Whatsapp: 62 98176-7366 (Marcelo)

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